quinta-feira, 29 de abril de 2010

COTIDIANO SEM CHÃO (PARTE 3)

Local: Gráfica perto da Paulista.

Cliente: Oi, eu vim pegar meu cartaz que ficou pronto ontem, mas deu problema.

Atendente: Claro, você lembra com quem você falou ontem?

Cliente: Ah, era um...moreninho...

Atendente: Certo, o R...


O mesmo R. que me atendia e que estava nos fundos da loja resolvendo minhas impressões. Um homem negro. Como ficaria esse mesmo diálogo numa gráfica carioca?


Cliente: Oi, eu vim pegar meu cartaz que ficou pronto ontem, mas deu problema.

Atendente: Claro, você lembra com quem você falou ontem?

Cliente: Ah, é o crioulo que trabalha aí

Atendente: Certo, o R...


E aí? muito pesado? muito leve em São Paulo?

De uma forma ou de outra o diálogo verdadeiro mostrou uma coisa: o preconceito está dentro do coração das pessoas, mesmo de forma inconsciente. E, às vezes, tentar disfarçar só piora a coisa...

sexta-feira, 23 de abril de 2010

COTIDIANO SEM CHÃO (PARTE 2)

Almoçar no McDonald's é uma decisão sem chão. Contudo, algumas experiências vividas lá dentro são muito valiosas, apesar da comida gordurosa e salgada. Hoje foi meu dia de apreciar um pouco da antropologia do fast-food.

Começa com os atendentes cheios de pronomes de tratamento e adjetivos, mas nada espontâneos. Culpa deles? De jeito nenhum. As frases vieram prontas, assim como as carnes e as bebidas.

Minha sorte mudou quando me sentei ao lado de uma perfeita família de comercial "amo muito tudo isso". Será? Vamos ver de perto.

O Pai: provavelmente vivendo o final da sua 4a. década, trajando um modelo "assim chique-à-vontade" demonstrando que as vendas andam de vento em popa e que, no final do ano, trocaremos de carro.

A Mãe: Sem dar a mínima para os 50 anos que se aproximam, ela era o próprio retrato do desapego à vaidade, com braços robustos, perfeitos para lavar, passar e cozinhar.

A Menina: Com aproximadamente 10 anos de idade, trajava as roupas da femme fatale que ela um dia será; ou é, sem saber...

O Bebê: Destoando do resto da família, a menina de seus 10 meses (agora titio, estou ficando bom pra chutar idade de crianças) ostentava um ralo cabelo loiro e um belo par de olhos verdes e arregalados.


A Cena: Recipientes vazios sobre a mesa, a família gozava a preguiça pós-almoço. Agitado apenas o bebê, que mastigava feliz um cachorrinho de balão (em São Paulo chamado de bexiga. Aquelas bexigas longelíneas que pessoas astutas amarram em formato de bichos). Mordia a patinha do cachorro. E a patinha do cachorro estourou. A mãe prontamente praguejou: "Eu avisei que você ia estourar isso, não avisei?". O bebê de 10 meses misteriosamente (?!?!?!) não respondeu. Ao contrário, desobedeceu a mãe e mordeu até estourar outra patinha. Nessa altura o pai, ao dar a bronca na criança, ouve o lamento da mãe: "Eu já falei pra ela...". Feliz com o zelo da mãe, o pai reforça o conselho: "Não faça isso que você vai se machucar". Mais uma vez sem respostas.

Depois de muito manejar o dilacerado cachorrinho, o bebê deixa cair o brinquedo no chão. A mãe se abaixa, pega o balão e o devolve para o bebê que, prontamente, recoloca na boca. Mas o cachorrinho já estava muito deformado, então uma funcionária da lanchonete (essa sem frases de efeitos e um sorriso sincero no rosto...deve ser por causa dos olhos verdes da criança) produz rapidamente um outro cachorrinho, dessa vez violeta. A criança toma o balão sem agradecer e o recoloca na boca.

Assim a família perfeita sai em fila pela porta do McDonald's. A criança/adolescente/femme fatale na frente, a mãe em seguida e, por último, o pai-herói carregando o pobre bebê no colo...

Sempre depois de uma seção de antropologia de araque, eu repito para mim mesmo:

AMO MUITO TUDO ISSO!!!

segunda-feira, 5 de abril de 2010

MAIS UMA OBRA SEM CHÃO


Está sendo lançado o livro "A Escrita. Há futuro para a escrita?", do filósofo apátrida Vilém Flusser.

Traduzido por Murilo Jardelino da Costa, o livro tem participações de Gustavo Bernardo (UERJ) e Norval Baitello Jr. (PUC-SP).

Eu ainda não li (acabei de comprar), mas já recomendo. Essa é mais uma obra do filósofo sem chão.

Outras obras do mesmo autor que são fantásticas:

Filosofia da Caixa Preta;
História do Diabo;
Bodenlos (não é coincidência);
O Mundo Codificado.


E bom mergulho no mundo maluco de Flusser.