sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

TRINTA ANOS DEPOIS

O comentário do pai precavido:



Trinta anos passados... era noite depois de mais um dia tenso de trabalho. O destemido pai, que não evitava desafios nem tinha medo de nada, dirigia que nem louco para chegar a tempo na maternidade. Era apenas mais um desafio, uma nova etapa da vida que seria facilmente vencida. Mas aquele jovem pai, destemido e ousado, a receber da enfermeira aquele projeto de gente, enrolado num pano apenas com a carinha de fora, viu-se de repente, como a pessoa mais feliz do mundo, mas ao mesmo tempo totalmente impotente e incompetente....Meu Deus! como vou cuidar "disto"? Ganhei o melhor presente da minha vida, mas e agora? o que eu faço? Gritou pra si mesmo. Baseado no mais puro e incondicional amor, o agora inseguro pai, tentou ser dedicado e comprometido com a missão que assumira naquela noite de dezembro, tentou compartilhar tudo que aprendera de bom, o respeito pelas pessoas, pelas leis, a paixão pelo Flamengo e pelos Beatles. Com certeza, o insistente pai, errou mais do que acertou. Algumas injustiças foram cometidas, alguns exageros foram impostos. Resta para o pai apaixonado pelo filho, a certeza de que aquela criatura, minúscula que segurava nos braços 30 anos atras, se tornou, por mérito próprio, um homem ético, de bom coração e competente, que é capaz de perdoar os deslizes do pai, prestes a se aposentar. Missão cumprida!

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

QUASE

Na capa do livro "1822" de Laurentino Gomes:

"Como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por dinheiro ajudaram D. Pedro a criar o Brasil - um país que tinha tudo para dar errado."

E não deu?

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

DEDICAÇÃO

Na sala de aula descobre-se que E., uma dedicada aluna e funcionária de uma empresa de contact center (telemarketing, saca?), não aparece na faculdade há dias.

Sentada na sua cabine, portando um headset e lidando com clientes pelo telefone o dia todo, E. vai tocando a vida, ao que parece.

K., sua amiga, (não é analogia ao Kafka!!!) contou que E. passa o dia com o livro de Phillip Kotler aberto na cabine. Entre uma ligação e outra, a aluna devora as teorias (sic) do marketeiro americano.

Esta seria uma excelente história de dedicação se não fosse por um detalhe: E. "perde" muito tempo nas leituras, o que a atrapalha no esforço diário de bater metas de ligação. Desta forma, nossa personagem não consegue sair do trabalho em tempo de chegar na faculdade e assitir as aulas. Ainda assim E. tirou nota 10 em todas as disciplinas.

E quem disse que mercado e academia não podem viver cordialmente???

sábado, 16 de outubro de 2010

20 ANOS DEPOIS

Era uma manhã quente de abril de 1990 no Rio de Janeiro. A cidade passava por um dos momentos mais tensos da sua história no quesito segurança (basta lembrar que 2 anos depois o exército foi às ruas cuidar da segurança do Eco92).

No meio do caos o carioca apreciador de boa música estava em êxtase. Chegava ao Brasil pela primeira vez o mais mercadológico dos Beatles, Sir. Paul McCartney. Dois show no Maracanã, com 180 mil ingressos vendidos. Dois deles mudaram a vida de um menino que amava Beatles, mas não Rolling Stones.

Por volta do meio dia o Monza cinza estacionava numa rede Ipiranga “Nota 10” para uma tarefa hercúlea: comprar três ingressos para o show. Eu digo três, pois a criança de 9 anos de idade, que estava sentada no banco de trás, tinha ainda esperanças de ser lembrada na hora de ver o show do ídolo que despontava com canções como Can't Buy Me Love, Get Back e outras velharias.

Mas o prudente pai retorna ao carro com apenas dois ingressos. 180 mil pessoas é perigoso demais, pensou. Aquele momento nunca mais foi apagado da memória da criança, que hoje está em vias de completar 30 anos.

Felizmente Sir Paul foi gentil e resolveu voltar 20 anos depois para que a criança de 9 anos possa finalmente terminar aquele dia de abril. Faltando pouco mais de um mês para o show, agora em São Paulo, para nem metade da plateia do Rio, Get Back promete um final feliz para a saga de uma vida musical.

GET BACK TO WHERE YOU ONCE BELONGED!!!

MESTRES E PUPILOS

Passei o dia dos professores na companhia daqueles que fazem valer a pena a docência: os alunos.

Cada dia que passa eu sinto o tamanho da tensão entre estes dois seres. Disputas por atenção, poder, controle, sexo. Embates que muitas vezes começam em pequenas picuinhas.

Os assuntos burocráticos ofuscam os vínculos; notas, faltas, provas, seminários, tudo parece criar uma muralha de pura incomunicação...apenas as sombras dos vínculos.

Diversas são as válvulas de escape: chamadas, provas surpresas, broncas coletivas, expulsões e outros subterfúgios professorais; soneca, conversas, desprezo, rabiscos e outras malícias discentes. O ambiente onde o conhecimento circularia se carrega de tensões administrativas, racionais. O professor traz a luz, mas das 19hs às 22hs, com meia hora de intervalo. Se alguém absorver, legal...senão, paciência.

Mas e os vínculos?

Estão lá, eu vos digo, nas frestas deixadas pela parede do racional. Pequenos buracos por onde passam respeito, afetos e conhecimento...este construído coletivamente. Apesar da sala fria, das carteiras ordenadas, dos horários rígidos, das chamadas, das provas, há corpos ansiando vínculos. Se deixar levar pelos afetos em sala de aula é um exercício complicado e perigoso, mas muito fascinante.

Uma maçã a todos que gostam de vínculos em sala de aula!

DO YOU SPEAK ENGLISH?

Outro dia na sala de aula uma aluna me perguntou:

“Professor, o senhor fala inglês?”

“Ah, de certa forma...por que?”

“Por que um professor nos disse que nós precisamos falar inglês fluentemente.”

O bacana dessa pergunta é justamente refletir sobre o que é, ou o que deveria ser considerado inglês fluente.

Nas escolas de idiomas (fundo de quintal ou subsidiada por governos) aprende-se o tal “inglês instrumental”. Como pedir um café, como orientar-se nas ruas, como reservar um quarto de hotel. Contudo, nas visionárias empresas nos exigem um nível “fluente” de inglês. Está aí o conflito: o que é ser fluente? De que adianta aprender a reservar quarto de hotel? Para que eu vou usar o inglês no meu emprego? Eu vou usar o inglês no meu emprego?

Bem entendido, excluo deste comentário os cargos que envolvam negociações com estrangeiros ou qualquer tipo de contato permanente com unidades além-mar. Nos empregos “ordinários”, o inglês desponta aparentemente apenas como um diferencial. Para não nos selecionar pela cor de nossos olhos, adotam-se critérios mais aceitáveis, como segunda língua e outras certificações.

Você não fala inglês? Vá aprender! Por que? Não sei exatamente. Aprenda a pedir café e um cheeseburger. Com sorte a maquininha de bebidas quentes da cafeteria da empresa não estará em português.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

LE VINGT-DEUX DE SEPTEMBRE

Un vingt-deux de septembre au diable vous partites,
Et, depuis, chaque année, à la date susdite,
Je mouillais mon mouchoir en souvenir de vous...
Or, nous y revoilà, mais je reste de pierre,
Plus une seule larme à me mettre aux paupières:
Le vingt-deux de septembre, aujourd'hui, je m'en fous.

On ne reverra plus au temps des feuilles mortes,
Cette âme en peine qui me ressemble et qui porte
Le deuil de chaque feuille en souvenir de vous...
Que le brave Prévert et ses escargots veuillent
Bien se passer de moi pour enterrer les feuilles:
Le vingt-deux de septembre, aujourd'hui, je m'en fous.

Jadis, ouvrant mes bras comme une paire d'ailes,
Je montais jusqu'au ciel pour suivre l'hirondelle
Et me rompais les os en souvenir de vous...
Le complexe d'Icare à présent m'abandonne,
L'hirondelle en partant ne fera plus l'automne:
Le vingt-deux de septembre, aujourd'hui, je m'en fous.

Pieusement noué d'un bout de vos dentelles,
J'avais, sur ma fenêtre, un bouquet d'immortelles
Que j'arrosais de pleurs en souvenir de vous...
Je m'en vais les offrir au premier mort qui passe,
Les regrets éternels à présent me dépassent:
Le vingt-deux de septembre, aujourd'hui, je m'en fous.

Désormais, le petit bout de coeur qui me reste
Ne traversera plus l'équinoxe funeste
En battant la breloque en souvenir de vous...
Il a craché sa flamme et ses cendres s'éteignent,
A peine y pourrait-on rôtir quatre châtaignes:
Le vingt-deux de septembre, aujourd'hui, je m'en fous.

Et c'est triste de n'être plus triste sans vous


(GEORGES BRASSENS)

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

A MALDIÇÃO DO ESPETÁCULO

Você acredita em Deus? e em justiça divina? em coincidência?

O fato é que está "na boca do povo" o sucesso da campanha política do candidato e humorista Tiririca. Vestindo o figurino de sempre e com a peculiar fala inocente, o personagem ganha espaço nas discussões políticas brasileiras.

Tenho ouvido muita gente inconformada com a candidatura de Tiririca. Para estas pessoas, eu digo que ele exerce um direito democrático e cabe a nós escolhermos se ele vai ou não representar o Estado mais rico do país no Congresso.

Mas eu não quero discutir esse viés político. Me interessa o lado midiático. Quem está transformando Tiririca em celebridade eleitoral, ou como dizem alguns, em espetáculo? a TV? o rádio? os jornalistas? Nada disso. Nós mesmos estamos levando os índices de popularidade do figuraça para níveis preocupantes. No twitter, nas salas de aula, no futebol de domingo, no bar, Tiririca é a pauta no espaço público físico e virtual.

Mas não é necessário se preocupar tanto. Sendo um pouco supersticioso, basta lembrar que nas duas últimas eleições para Deputado (2002 e 2006) ganharam na ordem Enéias e Clodovil...o que aconteceu com ambos? MORRERAM!!!

Tiririca que abra os olhos...

HAI KAI SEM CHÃO

Com a mão suja e ressecada de giz

Feliz

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

ACADEMIA vs. ACADEMIA

Este blog sem chão, em parceria com o colega flamenguista e twitteiro @rmarotta, tem o prazer de anunciar a mais nova novela em 140 caracteres do twitter:

Academia x Academia, a série em 140 caracteres que cheira giz e puxa ferro.

Vocês podem acompanhar os capítulos pelo twitter, mas este blog se reserva ao direito de publicar o "Capítulo 0" da série:


Fade in

Durante a avaliação física, o indivíduo pedala sem sair do lugar em uma bicicleta ergométrica. Suado e tentando não perder o ritmo das pedaladas, ele puxa assunto com o avaliador:

- Aí, como eu gosto de estudar e estava de saco cheio do mercado publicitário, eu resolvi jogar tudo para o alto e entrar na academia, que é o que eu gosto realmente...quer dizer, não esta academia, aquela outra...Digo, eu gosto desta academia também, claro...ahn, você entendeu!




Porque, afinal, mente insana, corpo insano...

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

COTIDIANO SEM CHÃO (PARTE 4)

Dia desses na Rua Augusta, em São Paulo.

Uma dupla de cientistas tomava chocolate quente e comia pão de queijo numa lanchonetezinha.

No meio da discussão sobre a dicotomia dos rumos da catilogência, adentra no estabelecimento uma menina de mais ou menos 10 anos de idade trazendo na mão uma caixa cheia de panos de prato.

- Moço, o senhor não quer comprar um pano? 5 reais

- Não, querida... (toma a dianteira da conversa um dos cientistas)

Ainda ressentido com a cena da criança oferecendo o pano aos outros clientes, o cientista chama novamente a pequena.

- Me dá um.

- Se o senhor levar 3, são 10 reais só.

- Não, obrigado. Uma só me resolve.

O cientista dá o dinheiro, 10 reais, e recebe 5 de troco.

- Obrigada, senhor. Deus te abençoe.

- Deus não existe, meu anjo...



Fecha a cortina. Fim do 1o ato.

sábado, 7 de agosto de 2010

ÀS MARGENS DA FESTA

Domingo quente, apesar de um fim de tarde de inverno no Rio de Janeiro. Acasos da vida levaram dois cariocas, um flamenguista e outro vascaíno, a assistirem o “clássico dos milhões” no Maracanã. Talvez o último antes do fechamento do ex-Maior do Mundo.

Caminhando nos arredores do estádio, logo ao lado do campus da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, a dupla ruma em direção a um dos portões de entrada. Antes de cruzar a avenida, a polícia fazia o bloqueio das bebidas alcoólicas: aqueles que portavam latinhas, garrafas, ou copos com cerveja deveriam deixá-las ali mesmo antes de seguirem o caminho. Na frente da barreira policial estava Tiago mostrando rapidez e destreza ao colher as latinhas arremessadas no chão e as guardando em três grandes sacos plásticos. A dupla de torcedores terminava suas latinhas:


“Taí” amigo, pega a latinha aí.

(o rapaz, antes de jogar as latinhas no saco, as amassou com os pés)

Os sacos estão cheios hoje, hein?

É, hoje vai ter bastante latinha.

Sorte sua que a polícia não deixa os caras entrarem com cerveja. Diz aí, quanto tu vai conseguir com tudo isso de lata?

Ah, cara...uns 12, 13 reais.

Você tá brincando? Só isso? Porra cara, e compensa essa correria toda?

Tem que ser, né? Às vezes eu fico 2, 3 dias sem comer...

E tu mora aonde?

Aqui mesmo na rua. Eu durmo sozinho, não gosto de ficar com os outros caras não. Eles te batem e as pessoas te confundem com bandido. Eu não sou bandido não.

A polícia já te pegou?

Já sim. Os caras me revistaram e me deixaram ir.

Tu não é daqui não, né? De onde tu vem?

Sou baiano lá de Porto Seguro. Estou aqui há 3 meses só.

Porto Seguro? E o que você tá fazendo aqui, cara? Porra, aquele lugar lindo...

Eu sei, mas como eu vou voltar? Eu perdi meus documentos. Estou preso aqui. Aqui é muito difícil, mas lá é ruim também.

Qual é teu nome?

Tiago.

Tu tá doidão, tá não Tiago?

Que é isso, doutor. Eu não uso essas coisas não.

É isso aí, está certo mesmo. Boa sorte aí Tiago.

Valeu amigos, bom jogo pra vocês.


...é Tiago, o jogo foi uma merda...

sexta-feira, 30 de julho de 2010

SE MINHA BUZINA FALASSE



Na foto acima vemos o símbolo da campanha “Trânsito Mais Gentil”. Apesar dos motivos nobres, não vejo eficácia neste tipo de campanha.
Por que, afinal, ser gentil no trânsito? O que é ser gentil no trânsito?
Seria o motorista gentil o oposto daqueles típicos ogros, estivadores em seus Voyage cinca-chumbo, com o vidro aberto, o braço peludo de fora, palavreados e gestualidades impublicáveis?

No lugar do Voyage cinza-chumbo, Renault, Peugeot, Honda, Hyundai, Toyota, etc. Insulfilm, travas elétricas, potentes aparelhos de som, GPS, DVD, “kit acalma-criança” (sic), bancos de couro (melhores que o sofá de casa), ar condicionado, entre outros opcionais que transformam seu meio de transporte numa extensão da sua casa.

Além do conforto, é importante cercar o castelo dos perigos e inconvenientes exteriores: pedintes, motoboys, lavadores de pára-brisas (e aquela garrafa PET cheia de uma água nojenta que você tem certeza de que foi pega na sarjeta para “lavar” os vidros do seu carro), flanelinhas, ambulâncias, ciclistas, pedestres apressados...
Estabelecem-se, portanto, dois mundos: aquele do motorista no conforto do lar e aquele do selvagem mundo exterior. E como esses mundos se comunicam? Através do monótono som das buzinas.

Agora, imaginem se ao invés do simples “bip”, nossas buzinas articulassem palavras.
Que interessante seria a comunicação dos dois mundos que citamos: BIP (Seu veículo na frente do meu atrapalha meu ritmo e arruína meu dia); BIP (Não adianta ter pressa, seu pedestre impertinente, ninguém mandou ser pobre e ter de andar de ônibus. Queria chegar a tempo? por que não saiu 3 horas antes?); BIP (Apesar de estar dando seta, me incomoda deveras o fato de você morar neste prédio e querer justo AGORA estacionar, ocupando toda a faixa da direita, que serve unicamente para a minha passagem)...

Mas se não gritamos nem mostramos o dedo do meio, estamos sendo gentis no trânsito. Parabéns para nós!

BEEP BEEP, YEAH!

terça-feira, 27 de julho de 2010

O SILÊNCIO DE JOHN CAGE

Compartilho uma tradução livre que fiz de um vídeo disponível no youtube com o saudoso John Cage dando suas impressões sobre o som, ou melhor, sobre o silêncio. Esta tradução foi feita para um seminário na Faculdade Cásper Líbero e foi, portanto, adaptada. Então não estranhem se houver alguma incoerência.

segue o link http://www.youtube.com/watch?v=pcHnL7aS64Y


...e a tradução deste antropólogo de araque...

"Quando escutamos o que chamamos de música, parece que alguém está falando. E falando sobre seus sentimentos, ou sobre suas idéias de relacionamento.

Mas quando ouvimos o som do tráfego, aqui na 6a. Avenida, não tenho o sentimento que alguém está falando. Apenas parece que o som está agindo.

Eu adoro a atividade do som. Ele pode tornar-se mais alto, ou mais baixo, mais curto, mais longo. Ele faz tudo isso, e eu fico absolutamente satisfeito.

Eu não preciso que o som fale comigo. Falo apenas de som, que não significa nada. Não é internalizado, mas externalizado.

E as pessoas perguntam 'então você quer dizer que são apenas sons?' pensando que por ser apenas um som, deve ser inútil.

Eu amo os sons. Do jeitinho que eles são. E eu não quero que eles sejam nada mais. Não quero que eles sejam psicológicos, não quero que eles finjam que são importantes, que são presidentes, ou que eles estejam apaixonados por outros sons.

Eu também não sou tão estúpido. Havia um filósofo muito conhecido, Immanuel Kant, que disse que há duas coisas que não precisam de significado. Uma é a música, a outra a risada.

Elas apenas precisam apenas nos dar muito prazer.

A experiência sonora que eu mais gosto é a experiência do silêncio. E este silêncio em quase qualquer lugar do mundo hoje é tráfego. Se você escuta Mozart ou Beethoven, você percebe que eles são sempre os mesmos. Se você escuta o tráfego, você percebe que eles são sempre diferentes".


Em homenagem ao blog http://www.carlafiore.blogspot.com/

quinta-feira, 15 de julho de 2010

CONCERTO PARA VOZ E VUVUZELA

Durante um mês o mundo assistiu futebol de dentro de um vespeiro.

Criticada por jogadores, imprensa e ouvidos mais “sensíveis”, assopradas com fervor pelos sulafricanos e defendida pelos bastiões da preservação da cultura local, a vuvuzela foi um dos personagens principais desse espetáculo (no sentido "Debordiano" do termo) que é a Copa do Mundo da FIFA.

Vale lembrar que o show de horrores contou com polvo, modelo paraguaia, Mick Jagger, entre outros. Em alguns momentos havia futebol também, mas isso não vem ao caso.

O interessante é notar que a cultura de alguns países, como a África do Sul e, por que não, a República Federativa do Brasil, constroem uma parte de suas músicas sob o alicerce do barulho. Entendam, não estou de forma alguma subjugando qualquer manifestação cultural, como a vuvuzela. Porém, acho que seria importante tentar compreender por que a cultura, por vezes, se faz no barulho.

Murray Schafer, em seu “Ouvido Pensante”, já alertava para a sobrecarga dos sons das cidades, motivados pela produção desenfreada das máquinas...o homem não mais se relaciona com o que é natural, mas com o que é produto. Nossos avós, que imitavam assobios de pássaros, estão morrendo. Nossos primos, nossos irmãos, imitam sons sintetizados, batidas e barulhos (nada contra funk, rap, hip-hop e afins...de verdade).

Fones de ouvido cada vez mais potentes, instrumentos cada vez mais barulhentos, escutas cada vez mais individualizadas. Decibéis, Megawatts, Super-amplificadores e nosso ouvido é, sim, pinico.

E não sejamos hipócritas em dizer que “aqui a vuvuzela não tem vez...”. Experimente pegar o Metrô de São Paulo às 17hs e ouvir alguma coisa; vá ao centro do Rio de Janeiro e tente abstrair os funks tocados em alto som nas bancas; entre numa igreja e tente ouvir sua alma, tente ouvir a Deus...lá todos estão gritando também...Deus não é surdo...mas a gente está ficando...

===========<() POOOOOOOOO

segunda-feira, 21 de junho de 2010

O DIA QUE CONHECI ETIENNE SAMAIN

Era uma segunda-feira de fevereiro e o verão já espalhava seus raios ardidos nas primeiras horas de sol em Campinas. A dificuldade em dirigir não vinha apenas do trânsito carregado em São Paulo e nas estradas, mas também na falta de destreza no manejo do quebra-sol do carro, fugindo dos raios matinais. O caminho, que seria repetido durante muitas segundas-feiras, era longo e sonolento. Contudo, esta segunda-feira de fevereiro era diferente. No ar estavam os cheiros e os frescores da manhã, no carro o som alto tentava colocar Beatles na cabeça, mas esta parecia não ceder. Estava demasiadamente ocupada em planejar cada passo da entrevista com o professor Etienne Samain, que aconteceria em algumas horas na Unicamp. Professor consagrado e uma autoridade nos estudos da Antropologia da Imagem, porém pouco comentado nas rodas acadêmicas paulistanas. Resultado, poucos o conhecem pessoalmente. Ficava assim a ansiedade por encarar de frente um homem da academia.

Claro, devo dizer que este primeiro encontro seria apenas uma entrevista com candidatos a “aluno especial” no PPGCOM da Unicamp. A disciplina? Metodologia de Pesquisa. Mas isso não importava. Poderia ser um curso de corte e costura. Importava conhecer o professor.

O que ele vai perguntar? Devo falar de Gregory Bateson? Devo falar da minha dissertação (que na época estava em fase final)? Não. Não vou me preparar. Gosto do improviso. Cala a boca e ouça Beatles.

Na Unicamp antes da hora prevista, o bom mestrando “paulistano” começava dando o bom exemplo. Aos poucos o hall da pós-graduação do Instituto de Artes foi ficando mais e mais cheio de candidatos. Pronto, agora já era.

Chega o professor, com sua mala e sua ex-orientanda a tira-colo. Pobre moça, pensei. Essa “pobre” alma chama-se Fabiana Bruno, um talento e uma promessa nos estudos da fotografia. Mas isso não importa agora.

Foi feita uma lista dos candidatos por ordem de chegada. Eu era o quarto. Ufa, acabaria rápido com essa situação chata. Após alguns minutos de espera, sai o terceiro aspirante da sala chamando pelo nome: “Rodrigo.

Hora da verdade.

Lembro bem da alegria de estar indo ao encontro de um mestre, de alguém que dedicou a vida à vida acadêmica. Exatamente como você pretende dedicar a sua. De preferência com sucesso similar. Porta aberta, “bom dia, tudo bem?”

Tudo bem professor. Olá, prazer Rodrigo.
Prazer, Fabiana.
Rodrigo??? A gente se conhece de algum lugar?
Definitivamente não, professor. Eu saberia.
E o que o traz aqui?

Essa foi a resposta mais fácil da entrevista. A cada segunda-feira acordando cedo e respondendo a ela sem titubear.

“Quero dedicar a minha vida à Antropologia da Comunicação”

Foi assim que eu conheci um mestre, numa manhã quente de verão. Mais uma prova de que a melhor definição do termo “comunicação” é:

“COMUNICAÇÃO É ABRAÇO”

Amém!

quinta-feira, 10 de junho de 2010

O JORNAL QUE CONFUNDIU A AVÓ COM UM LOBO

Não quero julgar a qualidade da Folha de São Paulo. Tampouco dar a este diário sem chão um cunho político.

A proposta é uma análise fajuta da propaganda da Folha com a atriz Fernanda Torres.

Pouco tempo após o Estadão mudar seu projeto gráfico, a Folha seguiu o exemplo e “inovou”. Para propagar as boas novas, o jornal, capitaneado pela agência Africa, veicula em diversos canais de TV as novidades do jornal do futuro.

Gostaria de me ater aos argumentos. Diz Fernanda Torres: “Enquanto discutiam o futuro do jornal, a Folha fez. O jornal do Futuro. As letras e fotos ficaram maiores, por que às vezes o Brasil todo precisa enxergar melhor. Os textos estão concisos, os parágrafos mais curtos, mas o pensamento não [...] e não existe mais diferença entre o impresso e digital. Está tudo integrado.”

Vamos por partes:

“Enquanto discutiam o futuro do jornal, a Folha fez.”
- Quem discutia? E como é fazer o futuro? Vejamos na sequência como o futuro se desenha.


“As letras e fotos ficaram maiores, por que às vezes o Brasil todo precisa enxergar melhor.”
- Adorei o argumento Chapeuzinho Vermelho. “Vovó, pra que esses olhos tão grandes? Para te enxergar melhor, minha netinha”. Na verdade o lobo em pele de vovó queria devorar a pobre criança. A imagem em pele de informação está nos devorando cada dia mais e esse parece ser o “futuro” do jornal e dos meios de comunicação. Mais imagens, menos vidas. Imagens técnicas, subtrações dos corpos tridimensionais, padronização e superficialidade das histórias de vidas.


“Os textos estão concisos, os parágrafos mais curtos, mas o pensamento não”
- Tendo a discordar. O pensamento está sim mais curto, mas não se engane. Isso não é exclusividade da Folha de São Paulo. Os grandes jornais de São Paulo concorrem com os “expressinhos”, como o Metro e o Destak. Leitura dinâmica para quem está “na correria”. Imagens para satisfazer aqueles que não têm tempo de pensar, nem de se relacionar, nem de amar. Estão muito ocupados vencendo. Eis o futuro.

A semelhança entre o impresso e o digital daria outro post para discussão sobre a “morte” do jornal tradicional...vou pensar...


Este diário não pretende ensinar nem doutrinar. Então, me mantenho à superficialidade dos argumentos. A idéia é apenas despertar a reflexão. A profundidade vem nos diálogos, então alguém que me convide para uma mesa de bar. O blog não vai resolver os problemas do mundo.

Por enquanto...

quarta-feira, 26 de maio de 2010

O GUIA DO MOCHILEIRO DA GALÁXIA

Uma viagem de ônibus entre São Paulo e Rio de Janeiro dura 6hs.

Ir de São Paulo a Florianópolis de ônibus leva por volta de 11hs.

Pegando um avião, em 8hs estamos nos Estados Unidos; em 12hs estamos na Europa.

Então qual a diferença? Financeira, claro. Supondo que poucos podem fazer uma viagem de avião como quem vai ali ao lado, eu tento me ater às diferenças que extrapolam as barreiras do tempo cronológico da viagem.

Ir para longe é fascinante por ser de certa forma paradoxal. Você aprende que somos iguais e vivemos de forma tão diferente. Permitir-se a experiência de viver sob as regras dos outros é assustador, dá saudades, nos lembra que entre as 8hs, 10hs de viagem, existe de fato um oceano nos separando de nossa zona de conforto.

Por outro lado, tudo é novo. Será? Os rótulos mudam, alguns restaurantes mudam. Mas o que muda de substancial? A língua. O resto são McDonald's, Starbucks, Wall Marts, Carrefour, Coca-Cola e seleção brasileira. Todo mundo conhece, todo mundo consome. A viagem não deveria ser consumida, ela deveria ser experienciada. Como? Com o idioma, mas também com os cheiros, os sons, os sabores e os relacionamentos...

Vale dizer também que a experiência no exterior é altamente recomendável para patriotas de época de Copa do Mundo. Quer um conselho? Vá aos Estados Unidos, mas conheça os italianos e os gregos que lá moram. Vá à Bélgica, mas conheça os portugueses que lá (sobre)vivem. Perceba, assim, que você é mais um (no bom sentido). Um argentino fora de casa é alguém tão assustado quanto você. Um francês não é tão mal cheiroso e arrogante quanto você imagina. Não quero dizer que sejamos iguais nas angústias, apenas somos todos humanos e dividimos as mesmas carências. Claro que viajar achando que um inglês wizardiano (sem ofensas) vai resolver todos os seus problemas é furada. Quando viajar, não leve consigo suas próprias fronteiras. Não faça apenas barulho, pois afinal de contas, barulho é barulho em São Paulo, em Chicago e em Mumbai.

...e divirta-se!

quinta-feira, 13 de maio de 2010

TERCER MUNDO SONORO

Pegar Metrô em São Paulo num fim de tarde é algo consideravelmente sem chão. Quando possível, o ideal é adiar a volta para casa e tentar chegar com um pouco mais de dignidade. O problema é que às vezes a vida nos obriga a certos esforços.

Não basta o aperto, os empurrões, “usuários” que furam fila, saltam da escada na plataforma, impedem o fechamento da porta. O que completa o cenário de terceiro mundo num dos melhores metrôs do mundo (embora com pouca extensão) é a tensão de seu ambiente sonoro durante o horário de pico.

Uma composição elétrica rasgando a 60, 70Km/h um túnel estreito já é algo bastante barulhento. Uma aglomeração de cabeças e bocas colabora com o caldeirão. Mas o que surpreende é a falta de sensibilidade dos anúncios sonoros através dos auto-falantes. Recados imperativos dados em alto brado, como se competisse com o trem para ver quem faz mais barulho. “ATENCÃO, na impossibilidade de embarcar, aguarde o próximo trem”; “ATENÇÃO, não fiquem na região das portas”.

Tentando relevar os esforços de organização do Metropolitano, a falta de educação do brasileiro, diversas carências sociais que estão escondidas nesses fenômenos, fica a reflexão: Por que gritamos tanto?

Quem for obrigado a viver essa situação na hora do rush, sugiro que reparem como o ambiente fica mais tenso no momento em que a tal SSO explode em broncas vindas do “além”.

Um de cada vez...todos nós entraremos no trem...

sábado, 1 de maio de 2010

A CRISE NA BÉLGICA E O KIKO

Enquanto o Brasil vai bem, obrigado, a Europa ainda vive sequelas da crise econômica. Na Grécia o governo diz que precisa de dinheiro. A União Européia faz diversas restrições a um eventual empréstimo, enquanto parte da população grega sugere que UE pegue esse dinheiro, dobre bem dobradinho e...vocês já sabem.

A Grécia é notícia, pois a crise econômica é grave e as manifestações violentas. Contudo, outro país europeu passa por um momento delicado, não apenas economicamente, mas politicamente. Estou falando da pequena Bélgica. Sim, lá onde vivem os “belgicanos”, como diria aquele jogador de futebol. País que poucos conhecem. O Sergipe da Europa.

Pois a capital européia (dane-se a nova ortografia) está novamente sem primeiro-ministro. Divido em três grandes áreas (Flandres, Bruxelas e Valônia), o país na prática não existe. A região flamenga, de origem holandesa, mais rica e organizada ao norte; a Valônia ao sul, de origem francesa, com uma forte produção industrial e com problemas estruturais que lembram o velho e bom país tupiniquim. No meio está a capital Bruxelas, a única parte verdadeiramente bilíngue do país. Mesmo assim você encontrará belgas que demonstram verdadeira irritação ao ter de falar na língua do “irmão” (acreditem, eu vi pessoalmente).

Nesse momento, uma pequena comunidade da região de Bruxelas, chamada Bruxelles-Hal-Vilvorde (ou simplesmente BHV) vive dias de protagonista. Lá, os flamengos reivindicam maior autonomia neerlandofônica. Os valões protelam, adiam votações e a situação da pobre comunidade não muda por anos. Recentemente a paciência de um dos partido de direita de Flandres acabou. Assim, diversos políticos flamengos se desvincularam do governo, forçando a demissão do primeiro-ministro Yves Leterme, este também de origem flamenga. Detalhe: esta é a quinta vez que Leterme pede demissão do poder. Quem dá a última palavra nesse caso? O Rei. Querido pelos valões, ignorado pelos flamengos. A solução: ou os partidos entram em acordo e indicam um novo primeiro-ministro, ou a Bélgica será obrigada a antecipar as eleições.

O que é o mais grave em tudo isso? Um país de pouco mais de 10 milhões de habitantes, de origens diferentes (não nos esqueçamos da parte germânica da Bélgica), não são capazes de viver de forma pacífica. A cada dia que passa movimentos separatistas ganham mais força. Talvez sirva até (eu disse TALVEZ) como “incentivo” a outros países com problemas, como a Espanha. Enquanto falamos de globalização, de redução de fronteiras, de inclusão social e digital, a Bélgica se afunda na própria falta de compreensão.

...mas e o Kiko, não é mesmo?

quinta-feira, 29 de abril de 2010

COTIDIANO SEM CHÃO (PARTE 3)

Local: Gráfica perto da Paulista.

Cliente: Oi, eu vim pegar meu cartaz que ficou pronto ontem, mas deu problema.

Atendente: Claro, você lembra com quem você falou ontem?

Cliente: Ah, era um...moreninho...

Atendente: Certo, o R...


O mesmo R. que me atendia e que estava nos fundos da loja resolvendo minhas impressões. Um homem negro. Como ficaria esse mesmo diálogo numa gráfica carioca?


Cliente: Oi, eu vim pegar meu cartaz que ficou pronto ontem, mas deu problema.

Atendente: Claro, você lembra com quem você falou ontem?

Cliente: Ah, é o crioulo que trabalha aí

Atendente: Certo, o R...


E aí? muito pesado? muito leve em São Paulo?

De uma forma ou de outra o diálogo verdadeiro mostrou uma coisa: o preconceito está dentro do coração das pessoas, mesmo de forma inconsciente. E, às vezes, tentar disfarçar só piora a coisa...

sexta-feira, 23 de abril de 2010

COTIDIANO SEM CHÃO (PARTE 2)

Almoçar no McDonald's é uma decisão sem chão. Contudo, algumas experiências vividas lá dentro são muito valiosas, apesar da comida gordurosa e salgada. Hoje foi meu dia de apreciar um pouco da antropologia do fast-food.

Começa com os atendentes cheios de pronomes de tratamento e adjetivos, mas nada espontâneos. Culpa deles? De jeito nenhum. As frases vieram prontas, assim como as carnes e as bebidas.

Minha sorte mudou quando me sentei ao lado de uma perfeita família de comercial "amo muito tudo isso". Será? Vamos ver de perto.

O Pai: provavelmente vivendo o final da sua 4a. década, trajando um modelo "assim chique-à-vontade" demonstrando que as vendas andam de vento em popa e que, no final do ano, trocaremos de carro.

A Mãe: Sem dar a mínima para os 50 anos que se aproximam, ela era o próprio retrato do desapego à vaidade, com braços robustos, perfeitos para lavar, passar e cozinhar.

A Menina: Com aproximadamente 10 anos de idade, trajava as roupas da femme fatale que ela um dia será; ou é, sem saber...

O Bebê: Destoando do resto da família, a menina de seus 10 meses (agora titio, estou ficando bom pra chutar idade de crianças) ostentava um ralo cabelo loiro e um belo par de olhos verdes e arregalados.


A Cena: Recipientes vazios sobre a mesa, a família gozava a preguiça pós-almoço. Agitado apenas o bebê, que mastigava feliz um cachorrinho de balão (em São Paulo chamado de bexiga. Aquelas bexigas longelíneas que pessoas astutas amarram em formato de bichos). Mordia a patinha do cachorro. E a patinha do cachorro estourou. A mãe prontamente praguejou: "Eu avisei que você ia estourar isso, não avisei?". O bebê de 10 meses misteriosamente (?!?!?!) não respondeu. Ao contrário, desobedeceu a mãe e mordeu até estourar outra patinha. Nessa altura o pai, ao dar a bronca na criança, ouve o lamento da mãe: "Eu já falei pra ela...". Feliz com o zelo da mãe, o pai reforça o conselho: "Não faça isso que você vai se machucar". Mais uma vez sem respostas.

Depois de muito manejar o dilacerado cachorrinho, o bebê deixa cair o brinquedo no chão. A mãe se abaixa, pega o balão e o devolve para o bebê que, prontamente, recoloca na boca. Mas o cachorrinho já estava muito deformado, então uma funcionária da lanchonete (essa sem frases de efeitos e um sorriso sincero no rosto...deve ser por causa dos olhos verdes da criança) produz rapidamente um outro cachorrinho, dessa vez violeta. A criança toma o balão sem agradecer e o recoloca na boca.

Assim a família perfeita sai em fila pela porta do McDonald's. A criança/adolescente/femme fatale na frente, a mãe em seguida e, por último, o pai-herói carregando o pobre bebê no colo...

Sempre depois de uma seção de antropologia de araque, eu repito para mim mesmo:

AMO MUITO TUDO ISSO!!!

segunda-feira, 5 de abril de 2010

MAIS UMA OBRA SEM CHÃO


Está sendo lançado o livro "A Escrita. Há futuro para a escrita?", do filósofo apátrida Vilém Flusser.

Traduzido por Murilo Jardelino da Costa, o livro tem participações de Gustavo Bernardo (UERJ) e Norval Baitello Jr. (PUC-SP).

Eu ainda não li (acabei de comprar), mas já recomendo. Essa é mais uma obra do filósofo sem chão.

Outras obras do mesmo autor que são fantásticas:

Filosofia da Caixa Preta;
História do Diabo;
Bodenlos (não é coincidência);
O Mundo Codificado.


E bom mergulho no mundo maluco de Flusser.

quarta-feira, 31 de março de 2010

QUANDO VOCÊ SABE QUE ESTÁ PERDENDO ALGO

Apesar dos problemas da vida, não posso negar que já tive o privilégio de, como muitos de nós, viver e experimentar coisas bacanas. Acho importante valorizar e reconhecer isso.

Contudo, por vezes parece que algo muito rico escorre por nossos dedos, ou passa incólume por nossos olhos, como queiram. Eu digo que vivi isso pelo menos duas vezes de forma consciente.

A primeira foi no fim de 2008 em Londres (chique né) numa manhã fria dentro do British Museum (culto né?) no augusto salão de Antropologia. Um sem número de livros e artefatos de várias regiões do mundo. Seria um mergulho fascinante na história dos estudos antropológicos. Seria, se eu estivesse preparado para entender boa parte daquilo. Saí frustrado, mas com a promessa de voltar um dia para prestigiar apenas aquela seção.

A segunda, na verdade ainda me passa na frente dos olhos e não sei como lidar. Explico:

No meu prédio mora W., de aproximadamente 40 anos de idade. Portador de uma deficiência mental, W. passa boa parte do dia no hall de entrada do prédio pregando malefícios dos maus hábitos, os perigos das forças da natureza e o problema da morte iminente. Eu tenho certeza que seria fantástico tentar interagir de forma mais atenta com W., mas essa oportunidade ainda não chegou...até lá eu vou vendo a riqueza da comunicação e da loucura passando na frente do meu nariz...

domingo, 28 de março de 2010

MENSAGEM DE PÁSCOA

A Páscoa, algo religiosamente sem chão, está chegando e o canal à cabo TCM resolveu passar o musical (cult, por que não?) Jesus Christ Superstar, de Tim Rice e Andrew Lloyd Webber.

Uma ópera-rock, o musical conta as principais passagens da história de Jesus, o herói do mês de abril. Eu realmente recomendo, pois as músicas são fantásticas e Judas aparece como um personagem fascinante.

Nosso pobre Judas é a “voz da razão” no meio da festa do messias. E o mais interessante no musical é que Judas faz questionamentos absolutamente pertinentes.

Exemplos?


Judas:
"Every time I look at you I don't understand
Why you let the things you did get so out of hand
You'd have managed better if you'd had it planned
Now why'd you choose such a backward time and such a strange land?
If you'd come today would have reached a whole nation
Israel in 4 B.C. had no mass communication".

O que teria sido do Salvador em tempos de mass media???

Com essas singelas palavras eu desejo FELIZ PÁSCOA A TODOS!!!

sexta-feira, 26 de março de 2010

A CURTA VIDA DO SÍMBOLO



A imagem é de Rodrigo Coca/Foto Arena.

Além da beleza da foto, não pude deixar de relacionar tão forte imagem aos pensadores do que chamamos de Semiótica da Cultura (quem quiser saber mais, visite o site www.cisc.org.br). Um dos livros lançados pelo grupo se chama "Os símbolos vivem mais que os homens".

Não me cabe explicar aqui as idéias do grupo, mas me contento em dizer que, em linhas muito gerais, podemos pensar que existe uma realidade física, do corpo, que adoece, que necessita de reposição energética. E uma outra realidade simbólica, que construímos basicamente para podermos viver minimamente com a realidade física. Sim, ela é cruel. Ela diz que o que é corpo um dia vai acabar. É isso mesmo, você vai morrer. A partir daí construímos tudo o que temos ao nosso redor. Imagens. E dela nos alimentamos num afã de esquecimento de nossa própria morte.

Pois bem, lendo na internet sobre as manifestações de professores de São Paulo em "confronto" com a Polícia Militar, percebemos alguns dos símbolos que tecemos há tempos. Afinal, pra que serve a polícia. Pra que serve um professor? Pra que serve um jornalista? Entre outras coisas, para que os símbolos vivam mais que nossos corpos.

Essa imagem mostra um exato momento em que o que é simbolo não importa mais. Não é o professor que carrega a policial, não é o jaleco carregando a farda. São dois corpos brigando pela vida. Pela realidade física. E o homem tentando viver um pouco mais, apesar de seus símbolos.

QUANTO VALE UM CONSELHO?

Se meter na vida dos outros é algo demasiadamente sem chão. Acontece que há certos momentos em que somos incentivados a cometer tal crime. E aí quem consegue se segurar? Como diria o outro, imagine um coelho que tome a espingarda do caçador, atire na própria cabeça e caia no colo de um perplexo predador.

Ocorre algo parecido quando nos pedem conselhos. É a carta branca para invadirmos a vida alheia e para semearmos a discórdia. Afinal, onde houver fé que eu leve a dúvida.

O interessante é que, a cada conselho que damos, parece que tentamos resolver nossos próprios problemas. A minha impressão é que matamos nos outros nossos fantasmas. Se um amigo pede sua opinião sobre com qual das duas mulheres ele deve ficar, você prontamente sugere que ele fique com as duas. Ora, afinal é a atitude que você tomaria, claro. Se aquela garota não sabe se termina o namoro ou não, a primeira vontade é dizer sim. Oba, mais uma solteira na balada. E o melhor, está carente.

Parece que brincamos de escritor. Criamos os personagens, pensamos na trama e somos inconsequentes com relação ao desfecho. Afinal, sabemos que não vamos sofrer com a dor do personagem. Não importa o quanto a gente goste de alguém. A dor do seu amigo é a dor do seu amigo. Mesmo que você sofra com isso, a dor é sua. É diferente.

Fica aqui o convite para a reflexão. Quando damos conselhos, com o que nos preocupamos? Com o problema do amigo? Com a felicidade do amigo? Com nossos próprios problemas?

E você? Quantas novelas já escreveu?

COTIDIANO SEM CHÃO

Na padaria:

- Boa tarde, vai querer o que?

- Vocês têm pão diet?

"pausa para fazer cara de dúvida"

- Você quer dizer "pão integral"?

- Não, não. Pão diet. Aquele sem açúcar.

"é a vez desse que vos fala fazer cara de dúvida"

- Não senhor, não temos pão diet.

- Então me vê uma empada de palmito e aquele croquete ali.



É, não podemos dizer que ele não tentou...