Já é madrugada, ou ao menos é o que parece. Os poucos raios de luz que conseguem atravessar a pesada cortina branca rebatem no alto da parede. Não há silêncio nesse lugar. Ah, como eu queria o silêncio. A paz dos mortos invadindo minhas orelhas pelo menos uma vez. Mas os assobios não cessam. Cada fresta desse lugar é uma caixa de ressonância dos mais pavorosos sons. Tento acompanhar com as orelhas, com os olhos; no teto, na janela, no alto do armário. Não há saída. Não a conheço. Um passo preciso e chego à janela. Devagar. Os olhos vão procurando por detrás da pesada cortina algum sentido, mas lá fora só um borrão de luz e som. Volto os olhos para dentro. Não há esconderijo. Esses sons não se calam. Novamente rasteiro no chão, sinto o piso vibrar na frequência dos meus batimentos cardíacos. É minha última chance. Tudo que preciso é de mais um salto, preciso como sempre, que atravesse essa janela e projete meu corpo esguio nesse desconhecido que pretendo derrotar com minhas próprias unhas. Eu sei que posso. Força nas pernas, minhas pupilas se comprimem, devorando cada feixe de luz. É agor...
OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO APOLONINHO...vem aqui com a mamãe!!!
Miaaau


