quarta-feira, 26 de maio de 2010

O GUIA DO MOCHILEIRO DA GALÁXIA

Uma viagem de ônibus entre São Paulo e Rio de Janeiro dura 6hs.

Ir de São Paulo a Florianópolis de ônibus leva por volta de 11hs.

Pegando um avião, em 8hs estamos nos Estados Unidos; em 12hs estamos na Europa.

Então qual a diferença? Financeira, claro. Supondo que poucos podem fazer uma viagem de avião como quem vai ali ao lado, eu tento me ater às diferenças que extrapolam as barreiras do tempo cronológico da viagem.

Ir para longe é fascinante por ser de certa forma paradoxal. Você aprende que somos iguais e vivemos de forma tão diferente. Permitir-se a experiência de viver sob as regras dos outros é assustador, dá saudades, nos lembra que entre as 8hs, 10hs de viagem, existe de fato um oceano nos separando de nossa zona de conforto.

Por outro lado, tudo é novo. Será? Os rótulos mudam, alguns restaurantes mudam. Mas o que muda de substancial? A língua. O resto são McDonald's, Starbucks, Wall Marts, Carrefour, Coca-Cola e seleção brasileira. Todo mundo conhece, todo mundo consome. A viagem não deveria ser consumida, ela deveria ser experienciada. Como? Com o idioma, mas também com os cheiros, os sons, os sabores e os relacionamentos...

Vale dizer também que a experiência no exterior é altamente recomendável para patriotas de época de Copa do Mundo. Quer um conselho? Vá aos Estados Unidos, mas conheça os italianos e os gregos que lá moram. Vá à Bélgica, mas conheça os portugueses que lá (sobre)vivem. Perceba, assim, que você é mais um (no bom sentido). Um argentino fora de casa é alguém tão assustado quanto você. Um francês não é tão mal cheiroso e arrogante quanto você imagina. Não quero dizer que sejamos iguais nas angústias, apenas somos todos humanos e dividimos as mesmas carências. Claro que viajar achando que um inglês wizardiano (sem ofensas) vai resolver todos os seus problemas é furada. Quando viajar, não leve consigo suas próprias fronteiras. Não faça apenas barulho, pois afinal de contas, barulho é barulho em São Paulo, em Chicago e em Mumbai.

...e divirta-se!

quinta-feira, 13 de maio de 2010

TERCER MUNDO SONORO

Pegar Metrô em São Paulo num fim de tarde é algo consideravelmente sem chão. Quando possível, o ideal é adiar a volta para casa e tentar chegar com um pouco mais de dignidade. O problema é que às vezes a vida nos obriga a certos esforços.

Não basta o aperto, os empurrões, “usuários” que furam fila, saltam da escada na plataforma, impedem o fechamento da porta. O que completa o cenário de terceiro mundo num dos melhores metrôs do mundo (embora com pouca extensão) é a tensão de seu ambiente sonoro durante o horário de pico.

Uma composição elétrica rasgando a 60, 70Km/h um túnel estreito já é algo bastante barulhento. Uma aglomeração de cabeças e bocas colabora com o caldeirão. Mas o que surpreende é a falta de sensibilidade dos anúncios sonoros através dos auto-falantes. Recados imperativos dados em alto brado, como se competisse com o trem para ver quem faz mais barulho. “ATENCÃO, na impossibilidade de embarcar, aguarde o próximo trem”; “ATENÇÃO, não fiquem na região das portas”.

Tentando relevar os esforços de organização do Metropolitano, a falta de educação do brasileiro, diversas carências sociais que estão escondidas nesses fenômenos, fica a reflexão: Por que gritamos tanto?

Quem for obrigado a viver essa situação na hora do rush, sugiro que reparem como o ambiente fica mais tenso no momento em que a tal SSO explode em broncas vindas do “além”.

Um de cada vez...todos nós entraremos no trem...

sábado, 1 de maio de 2010

A CRISE NA BÉLGICA E O KIKO

Enquanto o Brasil vai bem, obrigado, a Europa ainda vive sequelas da crise econômica. Na Grécia o governo diz que precisa de dinheiro. A União Européia faz diversas restrições a um eventual empréstimo, enquanto parte da população grega sugere que UE pegue esse dinheiro, dobre bem dobradinho e...vocês já sabem.

A Grécia é notícia, pois a crise econômica é grave e as manifestações violentas. Contudo, outro país europeu passa por um momento delicado, não apenas economicamente, mas politicamente. Estou falando da pequena Bélgica. Sim, lá onde vivem os “belgicanos”, como diria aquele jogador de futebol. País que poucos conhecem. O Sergipe da Europa.

Pois a capital européia (dane-se a nova ortografia) está novamente sem primeiro-ministro. Divido em três grandes áreas (Flandres, Bruxelas e Valônia), o país na prática não existe. A região flamenga, de origem holandesa, mais rica e organizada ao norte; a Valônia ao sul, de origem francesa, com uma forte produção industrial e com problemas estruturais que lembram o velho e bom país tupiniquim. No meio está a capital Bruxelas, a única parte verdadeiramente bilíngue do país. Mesmo assim você encontrará belgas que demonstram verdadeira irritação ao ter de falar na língua do “irmão” (acreditem, eu vi pessoalmente).

Nesse momento, uma pequena comunidade da região de Bruxelas, chamada Bruxelles-Hal-Vilvorde (ou simplesmente BHV) vive dias de protagonista. Lá, os flamengos reivindicam maior autonomia neerlandofônica. Os valões protelam, adiam votações e a situação da pobre comunidade não muda por anos. Recentemente a paciência de um dos partido de direita de Flandres acabou. Assim, diversos políticos flamengos se desvincularam do governo, forçando a demissão do primeiro-ministro Yves Leterme, este também de origem flamenga. Detalhe: esta é a quinta vez que Leterme pede demissão do poder. Quem dá a última palavra nesse caso? O Rei. Querido pelos valões, ignorado pelos flamengos. A solução: ou os partidos entram em acordo e indicam um novo primeiro-ministro, ou a Bélgica será obrigada a antecipar as eleições.

O que é o mais grave em tudo isso? Um país de pouco mais de 10 milhões de habitantes, de origens diferentes (não nos esqueçamos da parte germânica da Bélgica), não são capazes de viver de forma pacífica. A cada dia que passa movimentos separatistas ganham mais força. Talvez sirva até (eu disse TALVEZ) como “incentivo” a outros países com problemas, como a Espanha. Enquanto falamos de globalização, de redução de fronteiras, de inclusão social e digital, a Bélgica se afunda na própria falta de compreensão.

...mas e o Kiko, não é mesmo?