quinta-feira, 21 de outubro de 2010

DEDICAÇÃO

Na sala de aula descobre-se que E., uma dedicada aluna e funcionária de uma empresa de contact center (telemarketing, saca?), não aparece na faculdade há dias.

Sentada na sua cabine, portando um headset e lidando com clientes pelo telefone o dia todo, E. vai tocando a vida, ao que parece.

K., sua amiga, (não é analogia ao Kafka!!!) contou que E. passa o dia com o livro de Phillip Kotler aberto na cabine. Entre uma ligação e outra, a aluna devora as teorias (sic) do marketeiro americano.

Esta seria uma excelente história de dedicação se não fosse por um detalhe: E. "perde" muito tempo nas leituras, o que a atrapalha no esforço diário de bater metas de ligação. Desta forma, nossa personagem não consegue sair do trabalho em tempo de chegar na faculdade e assitir as aulas. Ainda assim E. tirou nota 10 em todas as disciplinas.

E quem disse que mercado e academia não podem viver cordialmente???

sábado, 16 de outubro de 2010

20 ANOS DEPOIS

Era uma manhã quente de abril de 1990 no Rio de Janeiro. A cidade passava por um dos momentos mais tensos da sua história no quesito segurança (basta lembrar que 2 anos depois o exército foi às ruas cuidar da segurança do Eco92).

No meio do caos o carioca apreciador de boa música estava em êxtase. Chegava ao Brasil pela primeira vez o mais mercadológico dos Beatles, Sir. Paul McCartney. Dois show no Maracanã, com 180 mil ingressos vendidos. Dois deles mudaram a vida de um menino que amava Beatles, mas não Rolling Stones.

Por volta do meio dia o Monza cinza estacionava numa rede Ipiranga “Nota 10” para uma tarefa hercúlea: comprar três ingressos para o show. Eu digo três, pois a criança de 9 anos de idade, que estava sentada no banco de trás, tinha ainda esperanças de ser lembrada na hora de ver o show do ídolo que despontava com canções como Can't Buy Me Love, Get Back e outras velharias.

Mas o prudente pai retorna ao carro com apenas dois ingressos. 180 mil pessoas é perigoso demais, pensou. Aquele momento nunca mais foi apagado da memória da criança, que hoje está em vias de completar 30 anos.

Felizmente Sir Paul foi gentil e resolveu voltar 20 anos depois para que a criança de 9 anos possa finalmente terminar aquele dia de abril. Faltando pouco mais de um mês para o show, agora em São Paulo, para nem metade da plateia do Rio, Get Back promete um final feliz para a saga de uma vida musical.

GET BACK TO WHERE YOU ONCE BELONGED!!!

MESTRES E PUPILOS

Passei o dia dos professores na companhia daqueles que fazem valer a pena a docência: os alunos.

Cada dia que passa eu sinto o tamanho da tensão entre estes dois seres. Disputas por atenção, poder, controle, sexo. Embates que muitas vezes começam em pequenas picuinhas.

Os assuntos burocráticos ofuscam os vínculos; notas, faltas, provas, seminários, tudo parece criar uma muralha de pura incomunicação...apenas as sombras dos vínculos.

Diversas são as válvulas de escape: chamadas, provas surpresas, broncas coletivas, expulsões e outros subterfúgios professorais; soneca, conversas, desprezo, rabiscos e outras malícias discentes. O ambiente onde o conhecimento circularia se carrega de tensões administrativas, racionais. O professor traz a luz, mas das 19hs às 22hs, com meia hora de intervalo. Se alguém absorver, legal...senão, paciência.

Mas e os vínculos?

Estão lá, eu vos digo, nas frestas deixadas pela parede do racional. Pequenos buracos por onde passam respeito, afetos e conhecimento...este construído coletivamente. Apesar da sala fria, das carteiras ordenadas, dos horários rígidos, das chamadas, das provas, há corpos ansiando vínculos. Se deixar levar pelos afetos em sala de aula é um exercício complicado e perigoso, mas muito fascinante.

Uma maçã a todos que gostam de vínculos em sala de aula!

DO YOU SPEAK ENGLISH?

Outro dia na sala de aula uma aluna me perguntou:

“Professor, o senhor fala inglês?”

“Ah, de certa forma...por que?”

“Por que um professor nos disse que nós precisamos falar inglês fluentemente.”

O bacana dessa pergunta é justamente refletir sobre o que é, ou o que deveria ser considerado inglês fluente.

Nas escolas de idiomas (fundo de quintal ou subsidiada por governos) aprende-se o tal “inglês instrumental”. Como pedir um café, como orientar-se nas ruas, como reservar um quarto de hotel. Contudo, nas visionárias empresas nos exigem um nível “fluente” de inglês. Está aí o conflito: o que é ser fluente? De que adianta aprender a reservar quarto de hotel? Para que eu vou usar o inglês no meu emprego? Eu vou usar o inglês no meu emprego?

Bem entendido, excluo deste comentário os cargos que envolvam negociações com estrangeiros ou qualquer tipo de contato permanente com unidades além-mar. Nos empregos “ordinários”, o inglês desponta aparentemente apenas como um diferencial. Para não nos selecionar pela cor de nossos olhos, adotam-se critérios mais aceitáveis, como segunda língua e outras certificações.

Você não fala inglês? Vá aprender! Por que? Não sei exatamente. Aprenda a pedir café e um cheeseburger. Com sorte a maquininha de bebidas quentes da cafeteria da empresa não estará em português.