sexta-feira, 30 de julho de 2010

SE MINHA BUZINA FALASSE



Na foto acima vemos o símbolo da campanha “Trânsito Mais Gentil”. Apesar dos motivos nobres, não vejo eficácia neste tipo de campanha.
Por que, afinal, ser gentil no trânsito? O que é ser gentil no trânsito?
Seria o motorista gentil o oposto daqueles típicos ogros, estivadores em seus Voyage cinca-chumbo, com o vidro aberto, o braço peludo de fora, palavreados e gestualidades impublicáveis?

No lugar do Voyage cinza-chumbo, Renault, Peugeot, Honda, Hyundai, Toyota, etc. Insulfilm, travas elétricas, potentes aparelhos de som, GPS, DVD, “kit acalma-criança” (sic), bancos de couro (melhores que o sofá de casa), ar condicionado, entre outros opcionais que transformam seu meio de transporte numa extensão da sua casa.

Além do conforto, é importante cercar o castelo dos perigos e inconvenientes exteriores: pedintes, motoboys, lavadores de pára-brisas (e aquela garrafa PET cheia de uma água nojenta que você tem certeza de que foi pega na sarjeta para “lavar” os vidros do seu carro), flanelinhas, ambulâncias, ciclistas, pedestres apressados...
Estabelecem-se, portanto, dois mundos: aquele do motorista no conforto do lar e aquele do selvagem mundo exterior. E como esses mundos se comunicam? Através do monótono som das buzinas.

Agora, imaginem se ao invés do simples “bip”, nossas buzinas articulassem palavras.
Que interessante seria a comunicação dos dois mundos que citamos: BIP (Seu veículo na frente do meu atrapalha meu ritmo e arruína meu dia); BIP (Não adianta ter pressa, seu pedestre impertinente, ninguém mandou ser pobre e ter de andar de ônibus. Queria chegar a tempo? por que não saiu 3 horas antes?); BIP (Apesar de estar dando seta, me incomoda deveras o fato de você morar neste prédio e querer justo AGORA estacionar, ocupando toda a faixa da direita, que serve unicamente para a minha passagem)...

Mas se não gritamos nem mostramos o dedo do meio, estamos sendo gentis no trânsito. Parabéns para nós!

BEEP BEEP, YEAH!

terça-feira, 27 de julho de 2010

O SILÊNCIO DE JOHN CAGE

Compartilho uma tradução livre que fiz de um vídeo disponível no youtube com o saudoso John Cage dando suas impressões sobre o som, ou melhor, sobre o silêncio. Esta tradução foi feita para um seminário na Faculdade Cásper Líbero e foi, portanto, adaptada. Então não estranhem se houver alguma incoerência.

segue o link http://www.youtube.com/watch?v=pcHnL7aS64Y


...e a tradução deste antropólogo de araque...

"Quando escutamos o que chamamos de música, parece que alguém está falando. E falando sobre seus sentimentos, ou sobre suas idéias de relacionamento.

Mas quando ouvimos o som do tráfego, aqui na 6a. Avenida, não tenho o sentimento que alguém está falando. Apenas parece que o som está agindo.

Eu adoro a atividade do som. Ele pode tornar-se mais alto, ou mais baixo, mais curto, mais longo. Ele faz tudo isso, e eu fico absolutamente satisfeito.

Eu não preciso que o som fale comigo. Falo apenas de som, que não significa nada. Não é internalizado, mas externalizado.

E as pessoas perguntam 'então você quer dizer que são apenas sons?' pensando que por ser apenas um som, deve ser inútil.

Eu amo os sons. Do jeitinho que eles são. E eu não quero que eles sejam nada mais. Não quero que eles sejam psicológicos, não quero que eles finjam que são importantes, que são presidentes, ou que eles estejam apaixonados por outros sons.

Eu também não sou tão estúpido. Havia um filósofo muito conhecido, Immanuel Kant, que disse que há duas coisas que não precisam de significado. Uma é a música, a outra a risada.

Elas apenas precisam apenas nos dar muito prazer.

A experiência sonora que eu mais gosto é a experiência do silêncio. E este silêncio em quase qualquer lugar do mundo hoje é tráfego. Se você escuta Mozart ou Beethoven, você percebe que eles são sempre os mesmos. Se você escuta o tráfego, você percebe que eles são sempre diferentes".


Em homenagem ao blog http://www.carlafiore.blogspot.com/

quinta-feira, 15 de julho de 2010

CONCERTO PARA VOZ E VUVUZELA

Durante um mês o mundo assistiu futebol de dentro de um vespeiro.

Criticada por jogadores, imprensa e ouvidos mais “sensíveis”, assopradas com fervor pelos sulafricanos e defendida pelos bastiões da preservação da cultura local, a vuvuzela foi um dos personagens principais desse espetáculo (no sentido "Debordiano" do termo) que é a Copa do Mundo da FIFA.

Vale lembrar que o show de horrores contou com polvo, modelo paraguaia, Mick Jagger, entre outros. Em alguns momentos havia futebol também, mas isso não vem ao caso.

O interessante é notar que a cultura de alguns países, como a África do Sul e, por que não, a República Federativa do Brasil, constroem uma parte de suas músicas sob o alicerce do barulho. Entendam, não estou de forma alguma subjugando qualquer manifestação cultural, como a vuvuzela. Porém, acho que seria importante tentar compreender por que a cultura, por vezes, se faz no barulho.

Murray Schafer, em seu “Ouvido Pensante”, já alertava para a sobrecarga dos sons das cidades, motivados pela produção desenfreada das máquinas...o homem não mais se relaciona com o que é natural, mas com o que é produto. Nossos avós, que imitavam assobios de pássaros, estão morrendo. Nossos primos, nossos irmãos, imitam sons sintetizados, batidas e barulhos (nada contra funk, rap, hip-hop e afins...de verdade).

Fones de ouvido cada vez mais potentes, instrumentos cada vez mais barulhentos, escutas cada vez mais individualizadas. Decibéis, Megawatts, Super-amplificadores e nosso ouvido é, sim, pinico.

E não sejamos hipócritas em dizer que “aqui a vuvuzela não tem vez...”. Experimente pegar o Metrô de São Paulo às 17hs e ouvir alguma coisa; vá ao centro do Rio de Janeiro e tente abstrair os funks tocados em alto som nas bancas; entre numa igreja e tente ouvir sua alma, tente ouvir a Deus...lá todos estão gritando também...Deus não é surdo...mas a gente está ficando...

===========<() POOOOOOOOO