quinta-feira, 15 de julho de 2010

CONCERTO PARA VOZ E VUVUZELA

Durante um mês o mundo assistiu futebol de dentro de um vespeiro.

Criticada por jogadores, imprensa e ouvidos mais “sensíveis”, assopradas com fervor pelos sulafricanos e defendida pelos bastiões da preservação da cultura local, a vuvuzela foi um dos personagens principais desse espetáculo (no sentido "Debordiano" do termo) que é a Copa do Mundo da FIFA.

Vale lembrar que o show de horrores contou com polvo, modelo paraguaia, Mick Jagger, entre outros. Em alguns momentos havia futebol também, mas isso não vem ao caso.

O interessante é notar que a cultura de alguns países, como a África do Sul e, por que não, a República Federativa do Brasil, constroem uma parte de suas músicas sob o alicerce do barulho. Entendam, não estou de forma alguma subjugando qualquer manifestação cultural, como a vuvuzela. Porém, acho que seria importante tentar compreender por que a cultura, por vezes, se faz no barulho.

Murray Schafer, em seu “Ouvido Pensante”, já alertava para a sobrecarga dos sons das cidades, motivados pela produção desenfreada das máquinas...o homem não mais se relaciona com o que é natural, mas com o que é produto. Nossos avós, que imitavam assobios de pássaros, estão morrendo. Nossos primos, nossos irmãos, imitam sons sintetizados, batidas e barulhos (nada contra funk, rap, hip-hop e afins...de verdade).

Fones de ouvido cada vez mais potentes, instrumentos cada vez mais barulhentos, escutas cada vez mais individualizadas. Decibéis, Megawatts, Super-amplificadores e nosso ouvido é, sim, pinico.

E não sejamos hipócritas em dizer que “aqui a vuvuzela não tem vez...”. Experimente pegar o Metrô de São Paulo às 17hs e ouvir alguma coisa; vá ao centro do Rio de Janeiro e tente abstrair os funks tocados em alto som nas bancas; entre numa igreja e tente ouvir sua alma, tente ouvir a Deus...lá todos estão gritando também...Deus não é surdo...mas a gente está ficando...

===========<() POOOOOOOOO

2 comentários:

  1. Ok, lembro dos debates acadêmicos sobre esse barulho todo. Mas, chego a achar que, ao vivo, o som não era tão estridente(depoimento de quem estava lá); que atrapalhava mais a gravação que a mídia fazia do espetáculo que o mesmo.

    Embora eu sinta mais falta da nossa manifestação popular em estádios: cânticos. Esses sim, mais legais e sufocados pelas vuvús.

    Aquele papo: é ouvido quem fala mais alto...

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  2. O Eric postou um comentário bastante interessante: quem está dentro do barulho, às vezes não percebe a estridência do ruído.
    Daí a importância do silêncio: nos colocarmos fora da situação ambiente e tentar ouvir ' a voz que vem do coração ' (Mílton Nascimento em "Canção da América").
    Falando em som, isto me remeteu a uma compra que fiz recentemente de um fone de ouvido: ao entrar na loja e pedir um, o atendente veio com um 'megaturbo' que ao testar, me senti dentro de uma caixa acústica, mas não era aquilo que eu procurava no momento. Queria apenas um retorno do que ouvia, sem perder a percepção do ambiente ao meu redor.
    Efetuei a compra e o vendedor ficou com cara de quem não entendeu nada.
    mas deve ser porque ele estava ligado numa tv que gritava: "APROVEITE É SÓ AMANHÃ NO MAGAZINE LUIZA".
    E quanto ao reino dos céus? Será que ele é ganho aos gritos?
    Bom. Prefiro não polemizar...
    É isso!

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