Ir ao Rock in Rio é uma experiência absolutamente sem chão. Lá estão as experiências do som, da pele, da vertigem, do lúdico, da paciência, da fome, do cansaço, da satisfação, do namoro, do aperto fisiológico, do frio, do calor, da espera...
Descer de tirolesa, dar uma volta na roda-gigante, chegar o mais perto possível do palco, olhar com curiosidade para as figuras excêntricas tocando jazz e folk no Rock Street. De certa forma, são interessantes experiências do corpo.
Mas é pra isso que o Rock in Rio foi planejado?
Polêmicas com Claudia Leite, vaias e dúvidas quanto ao “rock” do Rio. O fato é que o evento foi planejado pensando neles...os patrocinadores e a TV.
Sete dias de evento, todos os estilos musicais e muita, muita marca nos chamando à sedução. Imagino que um Rock in Rio em dois dias, apenas com o que há de mais tradicional do cenário do rock mundial, não seria viável financeiramente. Muita estrutura para pouco comercial, digo, rock’n roll.
O que se vê então são enxurradas de marcas em simpáticos quiosques nos propondo não o contato com o produto, mas a experiência da marca. Uma ilha de conforto e tecnologia para o desgaste físico de um festival de rock. Telefonia celular, carros, biscoitos, cervejas, chicletes, instrumentos musicais, faculdades, escolas de idiomas, alimentos de toda a sorte. “Oi, eu sou a Marca X e estou adorando passar o Rock in Rio com você...”. Não importa consumir o biscoito, mas a imagem...devoração em duas dimensões.
Já a TV estava de olho nos artistas. Após tocar uma hora para quase 100 mil pessoas (experiência do corpo), o artista se via obrigado a prestar contas com a televisão. Músicos suados e em êxtase entrando no estúdio apertado das apresentadoras do canal de TV por assinatura. As perguntas de sempre: “como foi o show?”. “Do ca#*@!lho”, óbvio.
Apesar da experiência do corpo vivida pelos privilegiados participantes do festival, o que vemos no final é um grande espetáculo cuidadosamente arranjado para que os olhos das câmeras não perdessem um ângulo das atrações e para que as marcas não perdessem um segundo de atenção dos futuros consumidores.