segunda-feira, 10 de outubro de 2011

UM FESTIVAL EM DUAS DIMENSÕES

Ir ao Rock in Rio é uma experiência absolutamente sem chão. Lá estão as experiências do som, da pele, da vertigem, do lúdico, da paciência, da fome, do cansaço, da satisfação, do namoro, do aperto fisiológico, do frio, do calor, da espera...

Descer de tirolesa, dar uma volta na roda-gigante, chegar o mais perto possível do palco, olhar com curiosidade para as figuras excêntricas tocando jazz e folk no Rock Street. De certa forma, são interessantes experiências do corpo.

Mas é pra isso que o Rock in Rio foi planejado?

Polêmicas com Claudia Leite, vaias e dúvidas quanto ao “rock” do Rio. O fato é que o evento foi planejado pensando neles...os patrocinadores e a TV.

Sete dias de evento, todos os estilos musicais e muita, muita marca nos chamando à sedução. Imagino que um Rock in Rio em dois dias, apenas com o que há de mais tradicional do cenário do rock mundial, não seria viável financeiramente. Muita estrutura para pouco comercial, digo, rock’n roll.

O que se vê então são enxurradas de marcas em simpáticos quiosques nos propondo não o contato com o produto, mas a experiência da marca. Uma ilha de conforto e tecnologia para o desgaste físico de um festival de rock. Telefonia celular, carros, biscoitos, cervejas, chicletes, instrumentos musicais, faculdades, escolas de idiomas, alimentos de toda a sorte. “Oi, eu sou a Marca X e estou adorando passar o Rock in Rio com você...”. Não importa consumir o biscoito, mas a imagem...devoração em duas dimensões.

Já a TV estava de olho nos artistas. Após tocar uma hora para quase 100 mil pessoas (experiência do corpo), o artista se via obrigado a prestar contas com a televisão. Músicos suados e em êxtase entrando no estúdio apertado das apresentadoras do canal de TV por assinatura. As perguntas de sempre: “como foi o show?”. “Do ca#*@!lho”, óbvio.

Apesar da experiência do corpo vivida pelos privilegiados participantes do festival, o que vemos no final é um grande espetáculo cuidadosamente arranjado para que os olhos das câmeras não perdessem um ângulo das atrações e para que as marcas não perdessem um segundo de atenção dos futuros consumidores.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

PRÓXIMA ESTAÇÃO

O Governo de São Paulo moderniza aos poucos (bem aos poucos) a frota de trens do Metrô.

Ar-condicionado, mais espaço e mais silêncio...e o mesmo aperto, claro.

Em um aspecto a modernidade vai fazer falta ao Metrô. Os novos trens são equipados com mensagens gravadas para anunciar estações e outros serviços. Esta medida de padronização vai fazer desaparecer um dos poucos elementos de imprevisibilidade numa tediosa viagem de Metrô: o anúncio dos condutores.

Quem viaja de Metrô em São Paulo certamente já presenciou condutores que são candidatos a locutores, estão morrendo de sono ou apresentam um sotaque peculiar.

Hoje mesmo, na linha 1, o condutor gastava a voz de baixo profundo em locuções adocicadas e cheias de sex appeal. Um passageiro menos romântico poderia confundí-lo com vozes famosas do cinema como "Luke, you are my son", ou "seven days".

Há umas semanas atrás, foi a vez do condutor que deixou escapar um "desembarque pelo lado dirêcho do trem", provocando risadas num trem lotado às 7h30 da madrugada.



Mais uma vez a pressa (de sabe-se lá o que) uniformiza as vozes e calam o que as pessoas têm de mais fascinante: seu lado Demens.


"Cuidado com o vão entre o texto e seu bom senso"

segunda-feira, 4 de julho de 2011

E SE FOSSE O SEU CLUBE?

Aproveitando o clima de brasilidade que contagia os brasileiros, este blog sem chão propõe uma pauta para o debate pós fraquíssimo Brasil 0 x 0 Venezuela.

E se o seu clube de futebol do coração jogasse contra a Venezuela pela Copa América?

(desde 2009 alimentando as rivalidades futebolísticas)


E SE FOSSE:

Portuguesa x Venezuela – o jogo teria terminado com vitória da Lusa por 5x0, com 2 gols do Edno.

Corinthians x Venezuela – o jogo terminaria 1 x 0 para o Timão, com gol de pênalti irregular.

Palmeiras x Venezuela – o jogo terminaria 1 x 1, com gol de falta de Marcos Assunção. O autor do gol venezuelano assinaria contrato com o Verdão no dia seguinte.

São Paulo x Venezuela – o jogo terminaria 2x0 para a Venezuela, com 1 frango e meio do Rogério Ceni.

Grêmio x Venezuela – o jogo ficaria empatado em 0x0 até os 50’ do 2º tempo, quando o Grêmio marcaria um gol, de forma duvidosa.

Internacional x Venezuela – o jogo terminaria com vitória da Venezuela por 1x0, mas quase ninguém na mídia ia fazer muito caso, porque né? É o Falcão.

Botafogo x Venezuela – o jogo seguiria com a vitória do Fogão por 2x0 até os 30’ do 2º tempo, quando a Venezuela viraria o jogo para 3x2, jogando no Engenhão, claro.

Flamengo x Venezuela – o jogo terminaria empatado em 3x3, com 1 gol do Ronaldinho e 2 gols sem querer do Deivid. A Venezuela faria 3 gols de bola parada.

Vasco x Venezuela – o jogo seria um sufoco pro Vasco, até o juiz achar um pênalti no final do jogo.

Fluminense x Venezuela – o Fluzão ia meter 3x0 na Venezuela pra 3.000 pessoas no estádio...ninguém ia dar a mínima pra esse jogo.

Atlético-MG x Venezuela – o jogo terminaria 4x0 para a Venezuela e o presidente Kalil diria no seu twitter: “Não foi nada, estamos trazendo Jardel para sermos campeões da América”.

Cruzeiro x Venezuela – a raposa golearia por 4x0, o que seria um começo promissor de uma campanha brilhante de Copa América, até perder a final pra seleção do Suriname.

Sport x Venezuela – a partida não aconteceria, pois a diretoria do Sport boicotaria o jogo, reivindicando o título da Copa América de 1987.

Bahia x Venezuela – o tricolor perderia o jogo por 1x0 e contrataria um ex-corinthiano de 38 anos de idade para revitalizar o elenco.

Atlético-PR x Venezuela – o Furacão perderia o jogo e demitiria o técnico (como faz todo jogo), até o Geninho voltar ao clube.

terça-feira, 17 de maio de 2011

COTIDIANO SEM CHÃO (Parte 5)

Hoje, descendo com um amigo a Rua Augusta no fim da tarde, um mendigo nos aborda:

- Me arruma 50 reais?

Parei. Não consegui simplesmente avançar com cara de "não tenho nada". 50 reais?

Me arruma 50 reais pra eu comer uma lagosta?

...


Por que afinal, quem não chora não mama...


É...como diria Luis Mauro, a realidade às vezes assusta...e muito!!!

terça-feira, 5 de abril de 2011

KAIRÓS

Hoje no saguão de um Sesc qualquer:


(na despedida, agarrando o ex-orientador pelo braço e impedindo a entrada do pobre no elevador)


- Mestre (apelido carinhoso), nos falamos para resolvermos nossas pendências?

- Nos falamos sim, temos os próximos 20 anos pela frente.


(e o mestre some na multidão do elevador)


FIM



O tempo é algo fascinante, não é?



Agora, pára de correr e vai ler um livro...

domingo, 27 de março de 2011

1ª REALIDADE, 2ª REALIDADE, 3ª IDADE

Cena Única:

(Dia desses no Parque Água Branca)

Um galpão abriga uma espécie de clube da 3ª idade. Aos sábados o forró pode ser ouvido ao longe no agradável parque da Zona Oeste.

É fascinante passar pela entrada do “clube” e ver casais de senhores e senhoras remexendo, paquerando, aproveitando a fase da vida.

Passando pelo galpão, a caminho da saída do parque, um senhor é atendido por bombeiros, à espera de uma ambulância.

Fecha a cortina.

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Admirável a vitalidade e a alegria de senhores e senhoras da dita “melhor idade”, isso é indiscutível.

O que este blog coloca em pauta são os símbolos que circundam esta fase da vida. Os termos “terceira idade”, “melhor idade” ou algo que o valha abrange uma realidade simbólica, teorizada por um tcheco chamado Ivan Bistrina. Para ele existem duas realidades: a primeira física, fisiológica. Dos corpos, da matéria, que se deterioram. Da morte; a segunda realidade, que é simbólica, que nos transporta para além do corpo físico, e que vence a morte.

Deste ponto de vista, chamar senhores e senhoras de “melhor idade” é vencer pelos símbolos a realidade física, enchendo de significados a parte final do misterioso ciclo da vida.

Funciona, sem dúvidas. Precisamos disso. Imagino que não somos capazes de viver sem os símbolos. Mas, invariavelmente, um dia a 1ª realidade cobra seu preço.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

2ª LEI DA TERMODINÂMICA

Cavocando vídeos no youtube, encontro uma curiosa entrevista.

Carnaval de 1991, desfile da Unidos da Tijuca. A reporter entrevista uma foliã da ala das baianas.

- Eu não gosto de perguntar a idade, mas a senhora parece muito conservada...

- É...

- Quantos anos a senhora tem?

- 43!

- Ah, 43??? Tá com toda...garra ae...


Da próxima vez diga "a senhora parece muito acabada", ou simplesmente evite a entropia e não fale merda...


Como diria meu guru, na comunicação menos é sempre mais.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

ATRAVESSANDO O SAMBA

O que João Kleber e Escolas de samba têm em comum?

Me lembro de assistir ao programa do “humorista” com a noção de que os testes de fidelidade ficavam mais pesados a cada semana. A explicação grosseira é que as pessoas buscariam sempre mais do conteúdo desses testes. Numa semana elas já viram o cara trair a mulher com um beijo na boca, agora elas querem mais. Tirar a camisa? Meu Deus! Ficar só de lingerie? Impensável. No final, o programa chegava ao limite das possibilidades legais para o horário e o canal. Apelo visual. Imagens que não vinculavam, apenas curavam uma carência momentânea. Por ser superficial, precisávamos de mais. E João Kleber não podia oferecer mais. Foi embora para Portugal.

Com o samba acontece uma saturação parecida, porém sonora. Agora a lembrança é do carnaval de 1993. O Salgueiro, tradicional escola de samba carioca, botava a Sapucaí abaixo com o samba “Peguei um Ita no Norte”, conhecido vulgarmente como “Explode Coração”. Você já ouviu esse samba algum dia na sua vida, confesse!

É notável como esse samba-enredo foi um divisor de águas na festa carioca. A partir dele, as escolas começaram a apelar mais e mais para os refrões fáceis, para as baterias aceleradas e para as letras que “pegam”. Mas o fato é que as letras não pegam, e as imagens fáceis do samba não colam mais. O motivo é muito simples: quem vai à Sapucaí male-male fala português. Apelar para o fácil, para o superficial, no afã de angariar foliões pula-pula é uma péssima idéia, como foi a de João Kleber.

O carnaval virou imagem. Pior que isso, virou produto. Ou voltamos a fazer um carnaval vinculador, democrático, que respeite os ritmos e as melodias dolentes, ou exportamos o espetáculo para Portugal. Sabe-se lá por que, eles ainda conseguem consumir parte de nosso lixo midiático.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

MINISTRY OF SILLY THESIS

Minister
Good morning. I'm sorry to have kept you waiting, but I'm afraid my thesis has become rather sillier recently, and so it takes me rather longer to get to work. Now then, what was it again?

Man
Well sir, I have a silly thesis and I'd like to obtain a Government grant to help me develop it.

Minister
I see. May I see your silly thesis?

Man
Yes, certainly, yes.

…LATER…

Minister
That's it, is it?

Man
Yes, that's it, yes.

Minister
It's not particularly silly, is it? I mean, the semiotic analysis isn't silly at all and the methodological approach merely does a forward aerial half turn every alternate step.

Man
Yes, but I think that with Government backing I could make it very silly.

Minister
Mr Pudey, the very real problem is one of money. I'm afraid that the Ministry of Silly Thesis is no longer getting the kind of support it needs. You see there's Defense, Social Security, Health, Housing, Education, Silly Walks ... they're all supposed to get the same. But last year, the Government spent less on the Ministry of Silly Thesis than it did on National Defence. Now we get £348,000,000 a year, which is supposed to be spent on all our available products. Coffee?

Man
Yes please.

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Post dedicado ao colega professor Luis Mauro Sá Martino que, nas horas vagas (vai ver ele sabe o que é isso) cuida do blog www.alquimiadoverbo.com.br uma rara mistura de filosofia, comunicação, neuroses cotidianas, chás e uma pitada de homesick com sotaque britânico.

Não daria pra usurpar um quadro do Monty Python sem citar o ilustre professor.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

O RETRATO DE RONALDO GRAY

Ronaldo vendeu a alma ao diabo. Pintou em aquarela sua imagem de perfeição e expôs para o mundo todo, deixando seu corpo livre para o deleite dos pecados capitais. Como num “Retrato de Dorian Gray” às avessas, o corpo de Ronaldo sentiu as chagas dos exageros da imagem. O ídolo só conseguia sobreviver como imagem.

Agora na sua aposentadoria, a imagem vai tentar sensibilizar os abutres sedentos de sangue sobre seu corpo que padece. Talvez cole, pois a imagem ainda é admiravelmente imaculada, mas o corpo de Dorian Ronaldo Gray está sofrendo. E só ele pode sentir isso. O diabo sempre cobra seu preço.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

FORFAIT

Uma vez eu estava na USP assistindo uma aula da Pós-Graduação na Escola de Comunicação e Artes. A aula era do professor Massimo di Felice, italiano e sociólogo, que estuda relações na web sob um olhar antropológico. Sem entrar em detalhes sobre suas aulas, uma coisa que me chamou a atenção no professor foi seu conceito sobre aulas e, principalmente, salas de aula. De forma superficial apenas digo que di Felice é contra a sala de aula da forma que ela é disposta. Tentamos por vezes fazer nossas aulas em cafés ou mesmo nos mal cuidados jardins da ECA.

Somente depois disso eu entrei profissionalmente na sala de aula e isso sempre me perseguiu. Numa sala de aula não se vomita conteúdo, não se forma profissionais, mas se constrói conteúdo.

Sabemos que não é isso que acontece. Andamos de Metrô e esbarramos com propagandas de faculdades que formam profissionais vencedores. Uma faculdade que vende a chance de partilhar conhecimento morre de fome. A formação está ali, prontinha, no forfait, esperando pelo consumo.

Fico pensando qual seria a opinião do professor di Felice. Para sorte dele e azar dos alunos, ele está produzindo na USP, protegido do mercado. Enquanto isso aqui fora tentamos sobreviver, engolindo o orgulho e preparando o forfait. O peixe está estragando, mas é preciso vendê-lo assim mesmo.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

REVIRANDO AS CINZAS

Hoje acordei com uma notícia que mexeu com meu dia. No Rio de Janeiro ardia em chamas quatro barracões da Cidade do Samba. Enquanto a mídia abutre sugava desinformações e incomunicações do alto dos helicópteros, um longo filme passava em minha cabeça.

Em meados da década de 90 eu era um fervoroso seguidor do carnaval carioca. Tirava da festa popular elementos de música e arte que me atraíam muito. O espetáculo não interessava. Tinha que sair tudo perfeito. A visão era técnica. Amadora, mas técnica. Características de cada bateria, estilos de cada carnavalesco, podres de cada presidente. Eu era uma enciclopédia amadora do carnaval carioca. Sambas da década de 1970? Eu sabia. Quase como um analista esportivo, que tenta esconder suas preferências.

Acontece que o carnaval (e isso nem todo mundo percebe) é música, batida, cores, multidão. Quando o samba-enredo entra em suas veias e constrói parte do seu passado, daquilo que você é hoje, não é mais possível esconder uma paixão por trás de vergonhas ou pretensas posições analistas. Cresci ouvindo samba-enredo e ponto.
Por isso dói tanto esse fogo nos barracões. Acontece que, ao lado da dor vêm as dúvidas. Afinal, o que querem as pessoas com o carnaval?

Digo sem medo de errar que muitos, mas muitos mesmo querem dinheiro, fama e sexo. Aquela tríade que atrai milhares. Poderia partir para o politicamente correto e dizer que a comunidade, ela sim está interessada na festa. Não sejamos hipócritas. Na comunidade também existe desejo pela “tríade”, sem contar aquele ímpeto em fazer a festa e se acabar nos estados alterados de consciência (nada contra, diga-se de passagem).

Na hora da desgraça, entre urubus, jornalistas, curiosos, mafiosos, festeiros e sambistas é difícil dizer quão tristes estão todos. Não imagino até que ponto tal fatalidade afetou suas vidas. Posso dizer pela minha. A arte e a música padecem. O mais profundo espírito de comunidade tem tudo para ressurgir das cinzas, como uma fênix, que é um clichê, como adoram os carnavalescos.

MARKETING SEM CHÃO

Hoje, na fila do McDonald's.

- Boa tarde, um delicioso McTasty hoje?

- Por que? está em promoção?

- Não, senhor.

- Eu quero um número 6 e uma torta de banana.


É sempre bom ter a chance de escolher sozinho o que estou com vontade de comer.

Legal seria um gerente de marketing de bonezinho, touca e cara de tacho do lado de trás do balcão.



que venha 2011!!!