quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

ATRAVESSANDO O SAMBA

O que João Kleber e Escolas de samba têm em comum?

Me lembro de assistir ao programa do “humorista” com a noção de que os testes de fidelidade ficavam mais pesados a cada semana. A explicação grosseira é que as pessoas buscariam sempre mais do conteúdo desses testes. Numa semana elas já viram o cara trair a mulher com um beijo na boca, agora elas querem mais. Tirar a camisa? Meu Deus! Ficar só de lingerie? Impensável. No final, o programa chegava ao limite das possibilidades legais para o horário e o canal. Apelo visual. Imagens que não vinculavam, apenas curavam uma carência momentânea. Por ser superficial, precisávamos de mais. E João Kleber não podia oferecer mais. Foi embora para Portugal.

Com o samba acontece uma saturação parecida, porém sonora. Agora a lembrança é do carnaval de 1993. O Salgueiro, tradicional escola de samba carioca, botava a Sapucaí abaixo com o samba “Peguei um Ita no Norte”, conhecido vulgarmente como “Explode Coração”. Você já ouviu esse samba algum dia na sua vida, confesse!

É notável como esse samba-enredo foi um divisor de águas na festa carioca. A partir dele, as escolas começaram a apelar mais e mais para os refrões fáceis, para as baterias aceleradas e para as letras que “pegam”. Mas o fato é que as letras não pegam, e as imagens fáceis do samba não colam mais. O motivo é muito simples: quem vai à Sapucaí male-male fala português. Apelar para o fácil, para o superficial, no afã de angariar foliões pula-pula é uma péssima idéia, como foi a de João Kleber.

O carnaval virou imagem. Pior que isso, virou produto. Ou voltamos a fazer um carnaval vinculador, democrático, que respeite os ritmos e as melodias dolentes, ou exportamos o espetáculo para Portugal. Sabe-se lá por que, eles ainda conseguem consumir parte de nosso lixo midiático.

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