Era uma segunda-feira de fevereiro e o verão já espalhava seus raios ardidos nas primeiras horas de sol em Campinas. A dificuldade em dirigir não vinha apenas do trânsito carregado em São Paulo e nas estradas, mas também na falta de destreza no manejo do quebra-sol do carro, fugindo dos raios matinais. O caminho, que seria repetido durante muitas segundas-feiras, era longo e sonolento. Contudo, esta segunda-feira de fevereiro era diferente. No ar estavam os cheiros e os frescores da manhã, no carro o som alto tentava colocar Beatles na cabeça, mas esta parecia não ceder. Estava demasiadamente ocupada em planejar cada passo da entrevista com o professor Etienne Samain, que aconteceria em algumas horas na Unicamp. Professor consagrado e uma autoridade nos estudos da Antropologia da Imagem, porém pouco comentado nas rodas acadêmicas paulistanas. Resultado, poucos o conhecem pessoalmente. Ficava assim a ansiedade por encarar de frente um homem da academia.
Claro, devo dizer que este primeiro encontro seria apenas uma entrevista com candidatos a “aluno especial” no PPGCOM da Unicamp. A disciplina? Metodologia de Pesquisa. Mas isso não importava. Poderia ser um curso de corte e costura. Importava conhecer o professor.
O que ele vai perguntar? Devo falar de Gregory Bateson? Devo falar da minha dissertação (que na época estava em fase final)? Não. Não vou me preparar. Gosto do improviso. Cala a boca e ouça Beatles.
Na Unicamp antes da hora prevista, o bom mestrando “paulistano” começava dando o bom exemplo. Aos poucos o hall da pós-graduação do Instituto de Artes foi ficando mais e mais cheio de candidatos. Pronto, agora já era.
Chega o professor, com sua mala e sua ex-orientanda a tira-colo. Pobre moça, pensei. Essa “pobre” alma chama-se Fabiana Bruno, um talento e uma promessa nos estudos da fotografia. Mas isso não importa agora.
Foi feita uma lista dos candidatos por ordem de chegada. Eu era o quarto. Ufa, acabaria rápido com essa situação chata. Após alguns minutos de espera, sai o terceiro aspirante da sala chamando pelo nome: “Rodrigo.
Hora da verdade.
Lembro bem da alegria de estar indo ao encontro de um mestre, de alguém que dedicou a vida à vida acadêmica. Exatamente como você pretende dedicar a sua. De preferência com sucesso similar. Porta aberta, “bom dia, tudo bem?”
Tudo bem professor. Olá, prazer Rodrigo.
Prazer, Fabiana.
Rodrigo??? A gente se conhece de algum lugar?
Definitivamente não, professor. Eu saberia.
E o que o traz aqui?
Essa foi a resposta mais fácil da entrevista. A cada segunda-feira acordando cedo e respondendo a ela sem titubear.
“Quero dedicar a minha vida à Antropologia da Comunicação”
Foi assim que eu conheci um mestre, numa manhã quente de verão. Mais uma prova de que a melhor definição do termo “comunicação” é:
“COMUNICAÇÃO É ABRAÇO”
Amém!
Curioso que já ouvi algumas histórias de Etienne. Algumas bem curiosas, contadas por uma mestre de linha afim, da Cásper. Conto em um dia de Veloso!
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