segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Som e tempo
Madrugadas são absolutamente sem chão. Essa começou com a nítida impressão de que uma mulher gemia muito próximo à minha janela. Janelas abertas são sinais de calor, ou mesmo de falta de pudor, quem sabe? Abrí-las defronte ao computador é dar, enfim, o passe oficial para o som entrar. Gemidos? Não, senhor. Carros, carros e mais carros compõem uma orquestra certamente sem chão. O som é de passagem, como o ar que é cortado violentamente por máquinas e corpos apressados. Eterno movimento. Vai-e-vem? Não acredito. Fico com o vai. Pra frente. Mas estamos no meio da madrugada, puxa vida. Então que tal o som do gemido? Foi rápido demais para dizer que de fato alguém atingia o nirvana acima de minha cabeça. De qualquer forma, fica a impressão de que alguém finalmente percebeu que a flecha que corta o ar não precisa ter pressa. Em que tempo estamos? Na correria das centenas de cavalos deslizando em asfalto? Ou no “me espera que estou chegando” do intercourse noturno? O fato é que não vivemos no mesmo tempo. Envelhecemos, mas não crescemos. Acredito que o tempo esteja no amor, mas isso só o tempo me dirá.
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