quinta-feira, 10 de junho de 2010

O JORNAL QUE CONFUNDIU A AVÓ COM UM LOBO

Não quero julgar a qualidade da Folha de São Paulo. Tampouco dar a este diário sem chão um cunho político.

A proposta é uma análise fajuta da propaganda da Folha com a atriz Fernanda Torres.

Pouco tempo após o Estadão mudar seu projeto gráfico, a Folha seguiu o exemplo e “inovou”. Para propagar as boas novas, o jornal, capitaneado pela agência Africa, veicula em diversos canais de TV as novidades do jornal do futuro.

Gostaria de me ater aos argumentos. Diz Fernanda Torres: “Enquanto discutiam o futuro do jornal, a Folha fez. O jornal do Futuro. As letras e fotos ficaram maiores, por que às vezes o Brasil todo precisa enxergar melhor. Os textos estão concisos, os parágrafos mais curtos, mas o pensamento não [...] e não existe mais diferença entre o impresso e digital. Está tudo integrado.”

Vamos por partes:

“Enquanto discutiam o futuro do jornal, a Folha fez.”
- Quem discutia? E como é fazer o futuro? Vejamos na sequência como o futuro se desenha.


“As letras e fotos ficaram maiores, por que às vezes o Brasil todo precisa enxergar melhor.”
- Adorei o argumento Chapeuzinho Vermelho. “Vovó, pra que esses olhos tão grandes? Para te enxergar melhor, minha netinha”. Na verdade o lobo em pele de vovó queria devorar a pobre criança. A imagem em pele de informação está nos devorando cada dia mais e esse parece ser o “futuro” do jornal e dos meios de comunicação. Mais imagens, menos vidas. Imagens técnicas, subtrações dos corpos tridimensionais, padronização e superficialidade das histórias de vidas.


“Os textos estão concisos, os parágrafos mais curtos, mas o pensamento não”
- Tendo a discordar. O pensamento está sim mais curto, mas não se engane. Isso não é exclusividade da Folha de São Paulo. Os grandes jornais de São Paulo concorrem com os “expressinhos”, como o Metro e o Destak. Leitura dinâmica para quem está “na correria”. Imagens para satisfazer aqueles que não têm tempo de pensar, nem de se relacionar, nem de amar. Estão muito ocupados vencendo. Eis o futuro.

A semelhança entre o impresso e o digital daria outro post para discussão sobre a “morte” do jornal tradicional...vou pensar...


Este diário não pretende ensinar nem doutrinar. Então, me mantenho à superficialidade dos argumentos. A idéia é apenas despertar a reflexão. A profundidade vem nos diálogos, então alguém que me convide para uma mesa de bar. O blog não vai resolver os problemas do mundo.

Por enquanto...

2 comentários:

  1. "Os textos estão concisos, os parágrafos mais curtos, mas o pensamento não [...] e não existe mais diferença entre o impresso e digital"

    Pois é, mas o conteúdo continua um lixo; a apuração dos fatos cada vez mais superficial e os erros de gramática cada vez mais frequentes.

    Post brilhante!

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  2. Os comentários tendem a ser cada vez menos concisos e os pensamentos mais sintéticos, mesmo que, através dele, se cause confusão como feedback.
    A over informação a qual estamos sendo impingidos por um mundo louco por 'inovação' ( o que é isto que inventaram?)nos leva refletir sobre o que realmente é informar.
    Opiniões pagas a quem já está com a vida ganha e finge acreditar numa mudança travestindo-se de antagonista para fazer cara de conteúdo e bonito com o público que se acha intelectual, mergulhando na superfície do pseudo saber, à guisa de estar bem informado.
    Steve Jobs diz que não concorda com o blog competir com o jornal, mas, o que vemos, é uma tendência de um pensamento mais amplo através de páginas eletrônicas. Tal concisão conseguimos por esta mídia (blog) que já não dá pra levar os conteúdos jornalísticos à sério.
    Enquanto isso é melhor nos reunirmos numa roda (filosófica) de bar e não confundirmos deterioração de pensamento com informação.
    Afinal, pra quê essa massa cinzenta? Não é pra pensar melhor?
    Bons tempos aqueles em que neurologicamente algum homem confundiu a mulher com um chapéu...

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