O Aeroporto é um lugar de passagem. Um não-lugar. Não
habitamos no aeroporto, pois lá não fincamos raízes simbólicas. É um espaço sem
memória, sem afetividade.
Este blog se arrisca a dar alguma afetividade a um lugar tão
acostumado aos tumultos, às despedidas, à falta de limpeza, mas também às
expectativas e alegrias individuais e de grupos.
Costumo dizer que aeroporto tem cheiro de café pisado. As
portas automáticas se abrem e logo o cheiro do viciante pó preto nos puxa para
dentro de uma atmosfera artificial, de aparelhos de ar condicionado que,
imaginamos, nunca viram uma limpeza. Milhares de corpos de toda a sorte
circulam, olhares perdidos, como que querendo estar o quanto antes longe de lá.
Destacado da arquitetura sisuda, o brilhante painel mostra
quem chega e quem parte, funcionando como um motor que faz circular sem cessar
o fluxo dos corpos pelo não-lugar.
Se os corpos não param, como vinculá-los? Como se vincular
ao aeroporto?
Meu relato pessoal:
Década de 1980 no aeroporto Santos Dumont, no Rio de
Janeiro.
Visitas raras ao aeroporto na infância eram um ritual
aguardado com ansiedade. Do alto do segundo andar, o restaurante guardava
generosas janelas com vista para o pátio, as pistas e o mar. Era um restaurante
minimamente requintado (o que explicava as raras visitas), o que não fazia
diferença para uma criança de 5 anos. O
sabor do pãozinho com manteiga aperitivo (aquela manteiga em bolinhas no
recipiente de prata), do suco de laranja e aquela vista. O som das turboélices
do Electra II da Varig, que assobiavam e empurravam a aeronave até ela se
perder atrás das montanhas do Pão-de-Açúcar.
Sobre toda a confusão do fluxo de corpos, um lugar se
fazia...cheio de significados, pleno de sentidos e apontando todo um universo a
um dia ser descoberto.
Se vocês soubessem como é bom o cheiro de café pisado...
Só digo uma coisa: espero sentir esse cheiro muitas vezes com você <3 <3 <3
ResponderExcluirBeijos