terça-feira, 22 de dezembro de 2009

A MATEMÁTICA DA DISCÓRDIA

As últimas rodadas do Campeonato Brasileiro desse ano foram muito singulares em diversos aspectos. Um deles foi a execração pública de alguns matemáticos que, a pedido de canais de jornalismo esportivo (ou entretenimento, depende do ponto-de-vista), fizeram projeções sobre as chances de cada time na reta final. Essas projeções, baseadas em cálculos estatísticos, serviriam apenas de reforço racional para as considerações “estudadas” dos comentaristas esportivos (ou de entretenimento....ah, vocês entenderam).

O problema é que entrou em campo um elemento acima da “frieza” das contas e do raciocínio lógico: como qualquer outro estudo estatístico, essas projeções tinham margens de erros, ou caso contrário não seriam apenas PROJEÇÕES.

Resultado, o Fluminense, que tinha 98% de chances de cair, após uma arrancada cinematográfica, livrou-se na última rodada de forma dramática. Os tricolores bateram na raça os adversários (ok), a sabida imprensa esportiva (ok), e os malditos matemáticos, que davam como certo o rebaixamento (peraê!!! eles não disseram isso. 98% dá ainda 2% de salvamento, certo? Não no futebol).

Acontece que tais esforços matemáticos foram despejados em um caldeirão cultural como é o ambiente do futebol, que é um jogo (ludus) e, como tal, tem seus códigos culturais e seu tempo bem diferentes dos da “vida ordinária”. E, através do jogo, tecemos cultura, ligamos as pessoas, construímos parte da sociedade. Ganhamos na raça, no sangue e no suor. Viramos o jogo. Somos um bando de loucos. E aqui a matemática não tem vez.

É como se déssemos uma banana para o Iluminismo e disséssemos “às favas com a racionalidade, aqui é coração na ponta da chuteira. Quem são vocês, matemáticos, para rebaixar meu time e cantar “derrota” antes do tempo?”.

Estamos diante de um conflito razão/emoção, mas que poderia muito bem ser um diálogo entre eles. No jogo, ou fora dele, estamos ainda aprendendo a abraçar a emoção e a razão, aprendendo a viver como seres naturais e sensíveis. Como diria Edgar Morin, buscamos nosso Homo Sapiens Demens. Mas por enquanto...matemáticos, não saiam de casa desprotegidos!!!

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