segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

REVIRANDO AS CINZAS

Hoje acordei com uma notícia que mexeu com meu dia. No Rio de Janeiro ardia em chamas quatro barracões da Cidade do Samba. Enquanto a mídia abutre sugava desinformações e incomunicações do alto dos helicópteros, um longo filme passava em minha cabeça.

Em meados da década de 90 eu era um fervoroso seguidor do carnaval carioca. Tirava da festa popular elementos de música e arte que me atraíam muito. O espetáculo não interessava. Tinha que sair tudo perfeito. A visão era técnica. Amadora, mas técnica. Características de cada bateria, estilos de cada carnavalesco, podres de cada presidente. Eu era uma enciclopédia amadora do carnaval carioca. Sambas da década de 1970? Eu sabia. Quase como um analista esportivo, que tenta esconder suas preferências.

Acontece que o carnaval (e isso nem todo mundo percebe) é música, batida, cores, multidão. Quando o samba-enredo entra em suas veias e constrói parte do seu passado, daquilo que você é hoje, não é mais possível esconder uma paixão por trás de vergonhas ou pretensas posições analistas. Cresci ouvindo samba-enredo e ponto.
Por isso dói tanto esse fogo nos barracões. Acontece que, ao lado da dor vêm as dúvidas. Afinal, o que querem as pessoas com o carnaval?

Digo sem medo de errar que muitos, mas muitos mesmo querem dinheiro, fama e sexo. Aquela tríade que atrai milhares. Poderia partir para o politicamente correto e dizer que a comunidade, ela sim está interessada na festa. Não sejamos hipócritas. Na comunidade também existe desejo pela “tríade”, sem contar aquele ímpeto em fazer a festa e se acabar nos estados alterados de consciência (nada contra, diga-se de passagem).

Na hora da desgraça, entre urubus, jornalistas, curiosos, mafiosos, festeiros e sambistas é difícil dizer quão tristes estão todos. Não imagino até que ponto tal fatalidade afetou suas vidas. Posso dizer pela minha. A arte e a música padecem. O mais profundo espírito de comunidade tem tudo para ressurgir das cinzas, como uma fênix, que é um clichê, como adoram os carnavalescos.

2 comentários:

  1. Carnaval é 8 ou 80: ou você ama ou odeia.
    Mas, de fato, a comoção foi geral. No trabalho, na rua, em casa, todos pararam para assistir o espetáculo. Aliás, tudo vira espetáculo neste país em que a desgraça é audiência límpida.
    Carnaval é música. E música é pele, aflora sentidos. Música é um túnel do tempo, que nos leva a resgatar sabores e desejos adormecidos.
    Música mexe.

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  2. Queimou? Ardeu? Explodiu? Mas, como dizem os comentaristas da Vênus platinada: O Carnaval é uma explosão de alegria! Vale o termo mesmo que literalmente. E, independente de queimar ou não, o lema de Roma ainda permanece: "Panis et Circensis" - e certa vez o circo pegou fogo!
    Agora, o mais importante é ter samba no pé!
    E me dê os fones de ouvido porque não aguento mais batuque!

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